sábado, 25 de abril de 2009

na cadeira do sonho

(mulheres de pescadores)


diáspora


Era comprida. A pele escura. O cabelo planchado a ferro. A outra era clara, gostava de ser vista com essa distinção, cabelos lisos, magra, baixa e bem feia. Ainda assim fora rainha do clube dos negros da cidade. Chamavam-na de Leinha. A outra, nem nomeada era. Ambas gostavam de trotear juntas pelas ruas do centro, a visitar as lojas dos turcos onde experimentavam sapatos, todos, inclusive os masculinos. A compra era deixada sempre para o outro dia, quando seus pés estivessem com o mau humor mais descansado.
Apesar do gosto pelos sapatos que não lhes serviam e das meias esburacadas pelas quais jamais conseguiram observar o sol, suas preferências giravam em torno dos velórios. Nesses eventos não se pagava para ver a cara do finado e os choros das viúvas que, em segredo, agradeciam pela morte de mais um tirano – o pai já fora, agora, o marido, e depois o irmão. Ficavam as dívidas jamais pagas, pois, tratadas como lembranças de quem nada tivera para deixar.
Leinha e a Outra, certa feita, retiravam os móveis de dentro da casa da avó, Dona Rosa, onde residiam com outros milhares de parentes complicados. As cadeiras, sofás, armários, geladeira, mesa... foram colocados na frente do domicílio para que as visitas ficassem à vontade, com mais espaço, nos cômodos da casa. Sim, pois horas antes lhes havia chegado a notícia da morte da avó, que se internara na Santa Casa, sofrendo de forte gripe.
Com indisfarçável alegria arredavam camas e ralhavam com os irmãos e os primos para que as carregassem (as camas), com ânimo, para fora. Além dos sapatos, também gostavam de ralhar entre si e com os outros, principalmente se fosse para organizar uma cerimônia fúnebre em local de mais intimidade com o morto, distinto da frieza das salas velatórias com as quais estavam acostumadas.
A casa já estava vazia, faltava apenas a morta.
Um portador de má-notícia, confundido com o primeiro a oferecer as condolências, jogou-lhes na cara festiva a informação de que os móveis deveriam retornar a seus lugares, pois a morta ainda vivia.
Apesar da desolação, cada cadeira e cada cama e cada tudo restou em seu local de origem, como um ancião retornado à força do hospício, onde fora colocado, por equívoco, pelos filhos postiços. Todavia, o silêncio da mobília comportada durou mínima fração de tempo.
Na madrugada, o mau - portador retornara com a notícia – falecera a velha que não ralhava com ninguém, a não ser com uma cadela vadia chamada Potira, já mãe de mais de 100 filhos e que seria sacrificada quando do desaparecimento esperado. A cova canina, inclusive, havia sido preparada no fundo do pátio por Leinha, que detestava a cadela de moralidade duvidosa.
Os móveis foram colocados para fora, novamente.
Da longa espera se abismou a notícia de que a finada houvera dado novos sinais de vida. As cadeiras, mais uma vez, colocadas em seus lugares, davam sinais de não mais resistirem a tanta diáspora.
Por fim, chegou a notícia batata da morte. Sem dúvida a velha e boa Dona Rosa havia esticado as botas. Os móveis, por sua própria vontade, correram para o pátio e a casa ficou vazia para a comodidade das visitas.
Mas Leinha e a Outra não ficaram satisfeitas. Caiu um toró dágua que estragou os móveis da herança e espantou as visitas que preferiram o desconforto de seus lares à comodidade das goteiras da sala vazia da morta. Os atos fúnebres da cadela Potira foram o consolo dos sobreviventes - ah, sim, a boa Dona Rosa não mais estaria sozinha no vazio da nova morada.


(de Eliane Marques)

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Eliane, gostei muito do que escreveste, mas fiquei por muito perguntando-me diáspora?? por que vc usa essa palavra para falar dos móveis da casa?Você também poderia fazer referência às pessoas que que foram embora da casa por motivo do temporal?Você escreve muito bem,gosto muito das mensagens ocultas dos textos que escreve, as comparações.... faz o pensamento viajar.

marcela disse...

Qué buen escrito!!!
lembre de un cuento de Alfonsina Storni, que conta sobre un baile en una casa de pueblo, donde los muebles eran movidos de lugar y por una noche, todo es fiesta y los muebles fican escondidos... quizas estoy diciendo esto porque tu Diaspora foi uma festa