quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO

FUMAÇA MORTAL



"Con todas mis muertes
yo me entrego a mi muerte,
con puñados de infancia..."
Alejandra Pizarnik
I
vejo a morte
canoeira
mareando
me nina

Mãe morta
outra volta

um tiro nas costas
- não -
quero arrancar
da palma
poema
II

vida sobre morte
morte sobrevinda
entre
cadáveres
suicídio
black tie
loose
die

a morte
dá compasso
dá vida.

Lúcia Bins Ely
do Livro:
SOMBRA E LUZ (LANÇAMENTO 2011)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


POEMA 35

É um momento de criação infinita,
me disse, estou a ponto de morrer.

Enquanto isso gozava pouco ou mais ou menos
a vida com ela era um idílio de sonhos,
tínhamos grandes peleias, sobretudo,
no dia depois
de haver gozado com exagero.

À noite, que trepada! Santo Deus!
Na manhã seguinte, propriamente, o calvário.
No princípio, sempre queria matá-la
até que um dia pude compreender
que era seu gozo o que a matava.
Cada vez que me causava dano
eu, em vinganço, a fazia gozar.

O gozo me sobressalta, não posso evitar,
primeiro sofreo porque sinto que vou morrer,
depois, quando me encontro relaxada e tranquila,
toda viva, sofro porque algum humano me salvou.
O ódio mais profundo sinto
quando me dou conta que devo tudo a ele,
um dia, ele me disse:
vagina funcionará, e vagina uncionou.
Depois, na metade de uma trepada,
me disse com ternura: a mulher deve poder
dizer toas as suas coisas, escrevê-las,
fazer de suas coisas a história da mulher,
de nosso tempo, de nosso mundo.
Depois, me ensinou a amar o trabalho
e ontem à noite me disse: já és livre.
Já sabes escrever, amar e trabalhar
e isso é o que necessita uma mulher
para poder produzir sua própria liberdade.

Escrever para que seja possível a vida.
Amar para poder construir o mundo
no qual haveremos de viver, pensar
e trabalhar para que símbolo e carne
não possam se confundir nunca mais.

Me encanta, disse ela com indolência, a vida
que me propões antes de me abandonar.
E não te perguntaste que, talvez,
prefiro escrever a história de nosso amor
que foi longínquo e impossível
e com o amor seguir insisteindo
ainda que nada se possa de todo ou vem,
e trabalhar só para poder te comprar.

A mim, para dizer a verdade, lhe disse,
não me importam muito os motivos
nem quem haverá de se beneficiar
com o que possas produzir.
Só quero que experimentes
essa virtude do homem
de poder, com suas mãos,
modificar o mundo.

E quanto à poesia e ao amor,
se fosses capaz de entender
a força do trabalho,
te daria plena liberdade.
Podes escrever melhor que eu, se o desejas,
e podes me amar tanto quanto queiras.
E se não és capaz de tant liberdade
podes escrever pior que eu
e podes amar outros amores
ou condenar-te a viver com os enforcados
ou encerrar-te em teu quarto,
limpando os colares e os arinhos de ouro
e passando a blusinha azul e branca
que tua mãe usava antes de morrer.
Também podes, se queres,
romper todos mes beijos,
queimar todas as cartas,
fazer picadinhos dos bordados do tempo
e começar, sozinha, desde o começo,
tudo de novo.

Miguel Oscar Menassa (Buenos Aires, 1940)
do Livro: La Mujer y yo

sábado, 10 de dezembro de 2011

HOMENAGEM À CLARICE LISPECTOR

"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Clarice Lispector  nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Chechelnyk, Ucrânia, 10 de dezembro de 1920Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977)
Clarice Lispector....estaria completando 91 anos hoje, nossa homenagem com este poema e mais duas frases suas:
......Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever...
... não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento......

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

SUPERMERCADO DE CALIFORNIA

Esta noche, Walt Whitman, al bajar divagando por apartadas calles con árboles y mirar consciente y preocupado a la luna llena, mucho pensé en ti.
Hambriento y fatigado em mi búsqueda de imágenes, en el supermercado de frutas iluminado con neón penetré y tus enumeraciones evoqué!
Que melocontones y qué penumbras! Familias enteras comprando de noche! Pasillos llenos de maridos! Mujeres entre aguacates, críos entre los tomates! Y tú, García Lorca, que andas haciendo allá abajo junto a las sandías?
A ti te vi, Walt Whitman, sin niño, viejo y solitario desbrozador, hurgando en las carnes del frigorífico y observando a los chicos delos ultramarinos.
Oí como a cada uno le preguntabas: Quién acabó con las tocinerías? A cuánto van los plátanos? Eres tú mi angelito?
Errante anduve siguiéndote por dentro y fuera de los brillantes pisosde latas, seguido imginariamente por el detective del local.
A trancos, juntos  en nuestra quimera solitaria, bajamos por despejados corredores probando alcachofas, apoderándonos de los manjares congelados y sin pasar nunca por caja.
Que hacemos ahora, Walt Whitman? Cerrarán dentro de una hora. A qué rumbos apunta esta noche tubarba?
(Tu libro toco y sueño en nuestra aventura del supermercado y veo lo absurdo que fue.)
Divagaremos toda la noche por solitarias calles? Los árboles suman sombra a la sombra, se encienden las luces y en breve vamos a encontrarnos solos los dos.
Vamos a perdernos errantes por el sueño de la América extinuida, América de azules automóviles por sus carreteras, camino de nuestro tranquilo refugio?
Ah querido padre, de barba gris, solitario y viejo maestro del coraje, qué América fue la tuya cuando dejó Caronte de remar y desembarcaste en la humeante margen y en pie viste desaparecer la barca en las sombrías aguas del Leteo?

Alenn Ginsberg ( Newark, Nova Jersey, 3 de junho de 1926 – Nova Iorque, 5 de abril de 1997)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

GRATITUD


Gracias aroma
azul,
fogata
encelo.

Gracias pelo
caballo
mandarino.

Gracias pudor
turquesa
embrujo
vela,
llamarada
quietud
azar
delirio.

Gracias a los racimos
a la tarde,
a la sed
al fervor
a las arrugas,
al silencio
a los senos
a la noche,
a la danza
a la lumbre
a la espesura.

Muchas gracias al humo
a los microbios,
al despertar
al cuerno
a la belleza,
a la esponja
a la duda
a la semilla,
a la sangre
a los toros
a la siesta.

Gracias por la ebriedad,
por la vagancia,
por el aire
la piel
las alamedas,
por el absurdo de hoy
y de mañana,
desazón
avidez
calma
alegría,
nostalgia
desamor
ceniza
llanto.

Gracias a lo que nace,
a lo que muere,
a las uñas
las alas
las hormigas,
los reflejos
el viento
la rompiente,
el olvido
los granos
la locura.

Muchas gracias gusano.
Gracias huevo.
Gracias fango,
sonido.
Gracias piedra.

Muchas gracias por todo.
Muchas gracias.

Oliverio Girondo,
agradecido.

Oliverio Girondo (Buenos Aires, 17/08/1891 - 24/01/1967)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

NORMA E PARAÍSO DOS NEGROS

Odeiam a sombra do pássaro
na preamar da branca face
e o conflito de luz e vento
no salão da neve fria.

Odeiam a flecha sem corpo,
o lenço exato da despedida,
a agulha que mantém pressão e rosa
no gramíneo rubor do sorriso.

Amam o azul deserto,
as vacilantes expressões bovinas,
a mentirosa lua dos polos,
a dança curva da água na margem.

Com a ciência do tronco e do rastro
enchem de nervos luminosos a argila
e patinam lúbricos por água e areias
degustando a amarga frescura de sua milenária saliva.

É pelo azul rangente,
azul sem verme ou rastro adormecido,
onde os ovos de avestruz ficam eternos
e deambulam intactas as chuvas bailarinas.

É pelo azul sem história,
azul de uma noite sem temor de dia,
azul onde a nudez do vento vai quebrando
os camelos sonâmbulos das nuvens vazias.

É ali onde sonham os torsos sob a gula da erva.
Ali os corais empapam o desespero da tinta,
os dormentes apagam seus perfis sob a madeixa dos caracóis
e fica o oco de dança sobre as últimas cinzas.

Federico García Lorca (Granada, 05/06/1898 - Granada, 17 ou 18/08/1936)
do livro Poeta em Nova Iorque.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Frases sobre um escritor

"A morte é para um escritor um ponto e um parágrafo.  E se é mais que isso, o escritor terá que se psicanalisar."


Miguel Oscar Menassa (1940, Buenos Aires)
do livro: El Oficio de Morir

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO

(Culturamix)
ELEFANTES DA SOLIDÃO

1.

quando das feridas
se abrir a noite
saberá o grito

revém do arroio
rever seus pedaços
de nome, unhas e, bem
ao lado da vinha, marfins

essa marcha é
a fome que o peso
do corpo suporta

uvas, nunca consolo
aos elefantes da solidão

2.

na manada, tudo
tem patas cicatrizes
ossos, tem,

na garganta
o ruído da morte

oh corpo que arrasta
a poeira desse arroio,
o quê se mastiga só?

3.

a vinha,
grito que se mete
na presa das manhãs

a uva,
corcova de espinhos

raiz de navalha
corte de semente
tromba ou arroio

a menor das facas,
ainda assim, cabe na
dinastia desse homem

Eliane Marques (Integrante do Grupo de Poesia Cero)
No livro: Casa do Poeta Rio-Grandense 47 anos

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


VARIACIONES SOBRE EL TIEMPO

Tiempo:
te has vestido con la piel carcomida del último profeta;
te has gastado la cara hasta la extrema palidez;
te has puesto una corona hecha de espejos rotos y lluviosos jirones,
y salmodias ahora el balbuceo del porvenir con las desenterradas melodías de antaño,
mientras vagas en sombras por tu hambriento escorial, como los reyes locos.

No me importan ya nada todos tus desvaríos de fantasma inconcluso,
miserable anfitrión.
Puedes roer los huesos de las grandes promesas en sus desvencijados catafalcos
o paladear el áspero brebaje que rezuman las decapitaciones.
Y aún no habrá bastante,
hasta que no devores con tu corte goyesca la molienda final.

Nunca se acompasaron nuestros pasos en estos entrecruzados laberintos.
Ni siquiera al comienzo,
cuando me conducías de la mano por el bosque embrujado
y me obrigabas a correr sin aliento detrás de aquella torre inalcanzable
o a descubrir siempre la misma almendra con su oscuro sabor de miedo y de inocencia.
Ah, tu plumaje azul brillando entre las ramas!
No pude embalsamarte ni coneguí extraer tu corazón como un manzana de oro.

Demasiado apremiante,
fuiste después el látigo que azuza,
el cochero imperial arrollándome entre las patas de sus bestias.
Demasiado moroso,
me condenaste a ser el rehén ignorado,
la víctima sepultada hasta los hombros entre siglos de arena.

Hemos luchado a veces cuerpo a cuerpo.
Nos hemos disputado como fieras cada porción de amor,
cada pacto firmado con la tinta que fraguas en alguna instantánea eternidad,
cada rostro esculpido en la inconstancia de las nubes viajeras,
cada casa erigida en la corriente que no vuelve.
Lograste arrebatarme uno por uno esos desmenuzados fragmentos de mis templos.
No vacíes la bolsa.
No exhibas tus trofeos.
No relates de nuevo tus hazañas de vergonzoso gladiador en las desmesuradas galerías del eco.

Tampoco yo te concedí una tregua.
Violé tus estatutos.
Forcé tus cerrraduras y subí a los graneros que denominan porvenir.
Hice una sola hoguera con todas tus edades.
Te volví del revés igual que a un maleficio que se quiebra,
o mezclé tus recintos como en un anagrama cuyas letras truecan el orden y cambian el sentido.
Te condensé hasta el punto de una burbuja inmóvil,
opaca, prisionera en mis vidriosos cielos.
Estiré tu piel seca en leguas de memoria,
hasta que la horadaron los pálidos agujeros del olvido.
Algún golpe de dados te hizo vacilar sobre el vacío inmenso entre dos horas.

Hemos llegado lejos en este juego atroz, acorralándonos el alma.
Sé que no habrá descanso,
y no me tientas, no, con dejarme invadir por la plácida sombra de los vegetales centenarios,
aunque de nada me valga estar en guardia,
aunque al final de todo estés de pie, recibiendo tu paga,
el mezquino soborno que acuñan en tu honor las roncas maquinarias de la muerte,
mercenario.

Y no escribas entonces en las fronteras blancas "nunca más"
con tu mano ignorante,
como si fueras algún dios de Dios,
un guardián anterior, el amo de ti mismo en otro tú que colma las tinieblas.
Tal vez seas apenas la sombra más infiel de alguno de sus perros.

OLGA OROZCO ( 1920, Toay, La Pampa, Argentina - 1999,  Argentina)
do livro: Obra Poética

sábado, 12 de novembro de 2011

47ª Coletânea Casa do Poeta Rio-grandense

SÓLO DURA LO EFÍMERO

Buscando en un libro de Cortázar
la frase "solo dura lo efímero", encontre
el cuaderno de tapas negras que quise
mostrarte.
Pocas hojas escritas, algún dibujito hecho
con birome,
un fecha que ya no marca nada,
y los poemas de amor que quise mostrarte.

Quise decirte: Sólo dura lo efímero,
los caminos o los libros,
los grillos, las olas
y los cuadernos de tapas negras,
las agendas y las carreteras.

Tus ojos descansan sobre algunas letras,
tus pasos, tu voz en cada esquina,
y lo efímero:
los ferrocarriles, los aviones, las escaleras
mecânicas
el amanecer y el crepúsculo
- donde te encuentro -,
y Julio Cortázar
Rayuela y vos
y lo efímero:
"el único inmortal".

Marcela Villavella (Buenos Aires, 1956)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

Fui o que se chama de um bom fenício em tudo.
Não era navegar por navegar, meu ofício,
meu ofício era me estender entre os portos.

Rosa perdida de perfumes rotos,
cor de solidão, deixava em cada porto,
um infinito broto de loucura.

Não estou perdido de amores, mas de tédio:
já ninguém corre pelos degraus de minha mente como tu,
já ninguém abre sua fonte com alegria e desejo para mim.
Eu já não vejo teus olhos no profundo de minhas mãos.

Navegar por navegar não é meu ofício,
arrancar troços do nada e uni-los em conjuro,
esse é meu oficio silencioso e tenaz, como de versos,
meu ofício não se pode aprender, não sabe, é cego.

Miguel Oscar Menassa (Buenos Aires, 1940) No Indio Gris (Revista digital:www.indiogris.com) nº 76 e do livro Las 2001 Noches.

sábado, 5 de novembro de 2011

Convite a todos os amigos do Grupo Cero VersoB:

"Não um triunfo da alma sobre o corpo ou vice-versa, senão algo que nos ponha fora dessa dialética. Algo que nascendo nas entranhas se faça canção sem deixar de ser sangue, paixão enamorada. Uma canção sem a qual seja impossível viver."

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

A alegria da escrita

Para onde corre esta corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio - também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra "bosque" originou.

Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.

Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo.

Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal.

Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923)

Tradução de: Regina Przybycien

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

A VIDA NA HORA

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.








Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado–
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo–pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wislawa Szymborska (1923- Bnin, Polônia.)
(tradução: Regina Przybycien)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


Amor à primeira vista

Os dois estão convencidos
de que foi um sentimento súbito o que os juntou.
É bela uma certeza como essa,
Mas é mais bela a incerteza.

Acham que por não se terem conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
Onde há muito podiam se cruzar?

Queria perguntar-lhes
Se não se lembram -
Na porta giratória talvez
Um dia cara a cara?
Em meio à multidão um 'com licença'?
No telefone a voz - engano?
- mas conheço sua resposta.
Não, não se lembram.

Ficariam surpreendidos de saber
Que já faz tempo
O acaso brincava com eles.

Não preparado ainda
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-se e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e, abafando a gargalhada,
saltava para o lado.

Houve sinais, signos, só que ilegíveis.
Talvez há três anos atrás
ou na terça-feira passada
certa folha voou
de um ombro para o outro?

Houve algo perdido e recolhido
Quem sabe, uma bola
já no bosque da infância.

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
já o toque se punha no toque.
As malas lado a lado no depósito de bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
Apagado imediatamente depois de acordar.

Pois cada princípio
é apenas uma continuação,
e o livro de eventos
sempre aberto no meio.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CADÁVER ESQUISITO no Laboratório a Poesia não se enamora nunca - no Porto Poesia 5

 

Aguardando no café (ainda não temos a foto do momento
do Laboratório) aguardem!
Eu te adora   meu amor

abre-te Cézamo   a poesia

tarde morna brinca com meu interior

Amo a natureza  por isso sou feliz
E as borboletas coloridas cruzavam as aves
agora os lírios encantam Brasis

II

às vezes embalo os passos
E, nas sombras da noite, um grito
Sou as quatro estações
            semeio esperança
abro o baú dos poemas

Sempre estarei aqui te esperando.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

 Convidamos todos os amigos para as atividades que o Grupo Cero estará promovendo no 5º PORTO POESIA:

12/10 das 20h15min às 21h15 - Leitura de poemas do livro inédito
                                                   SOMBRA E LUZ
                                                   pela autora Lúcia Bins Ely

15/10 das 17h às 18h30min -     Laboratório: A POESIA NÃO SE ENAMORA NUNCA
                                                   coordena Lúcia Bins Ely
15/10 das 20h15 às 21h15min - SARAU AGITADOR POÉTICO
                                                   com o Grupo de Poesia do GRUPO CERO                                BUENOS AIRES
15/10 das 21h15min às 22h -     Palestra: VIGÊNCIA DA POESIA
                                                    com a poeta argentina Marcela Villavella

 16/10 das 17h às 18h30 - Leitura de poemas
                                          com os Poetas do Futuro (Grupo de Poesia do GRUPO CERO BRASIL)

LOCAL: Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo
               Rua dos Andradas, 1223, Centro Histórico, PoA.
obs.: todas as atividades são gratuitas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

O POETA   

VI

O poeta fabrica
a pele da liberdade

com ela se cobre
pela metade

distribui
a outra metade

entre os que se mataram

VII

A pele do poeta
absorve a umidade
das salas

mofa
preta-se para centenários

a pele
do poeta

depois de morto
arregala a vida

VIII

Poeta nasce
para fabricar
pele

a única pele
que o poeta
não pode envergar

é a pele dos que se tatuaram


(continuará)

Armindo Trevisan (Santa Maria - RS - 1933)
do Livro Em pele e osso, 1977.
Desenho de Miguel Oscar Menassa

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

O POETA  

(Continuação)

III

Pele de poeta

é alumínio
entorta
mas guarda no verbo

o anti-verbo


IV

A pele do poeta
espalha carvões

desencaderna
livros

dá prurido
em pasta de documentos

seta
que deixa o presente

antes de ser fruto


V

Perder a pele
para o poeta
é fado

o poeta anda sem pele

se o constrangem
a falar por si

engancha
a pele

num grunhido

(continuará)

Armindo Trevisan (Santa Maria/RS, 1933)
(do livro: Em pele e osso, 1977)
desenho de Miguel Oscar Menassa

domingo, 2 de outubro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

O POETA

I

O poeta
fabrica pele

vai costurando
a cidade

cerze
o chafariz
ponto por ponto

cerze
o tubo
a língua do professor

o poeta fabrica
pele

a dele

só depois de transformado
em folha

bicho-da seda
que engoliu o mundo

fabrica
a pele maior

do impossível

II

A pele do poeta
é ele

pele de vento
pele
de cimento

a mesma pele do tanoeiro

pele da meretriz
em tapete
de parede e sapato

pele de engarrafador

tapa o circo
do mundo

(continuará)

Armindo Trevisan (Santa Maria/RS, 1933)
(do livro: Em pele e osso, 1977)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

                                                                             
EL AMOR EMPIEZA

El amor empieza cuando se rompen dos dedos
y se dan vuelta las solapas del traje,
cuando ya no hace falta pero tampoco sobra
la vejez de mirarse,
cuando la torre de los recuerdos, baja o alta,
se agacha hasta la sangre.

El amor empieza cuando Dios termina
y cuando el hombre cae,
mientras las cosas, demasiado eternas,
comienzan a gastarse,
y los signos, las bocas y los signos,
se muerden mutuamente en cualquier parte.

El amor empieza
cuando la luz se agrieta como un muerto disfrazado
sobre la soledad irremediable.

Porque el amor es simplemente eso:
la forma del comienzo
tercamente escondida
detrás de los finales.

Roberto Juarroz (Argentina, 1925-1995)
desenho de Miguel Oscar Menassa (Argentina, 1930)

sábado, 24 de setembro de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

CASI TODAS LAS VECES


Conozco la ternura
como la misma palma de mi mano.
A veces entre sueños la recuerdo
como si ya la hubiese perdido alguna vez.
Casi todas las noches
casi todas las veces que me duermo
en ese mismo instante
tú con tu grave abrazo me confinas
me rodeas
me envuelves en la tibia caverna de tu sueño
y apoyas mi cabeza sobre tu hombro.

Idea Vilariño (Uruguay 1920- 2009)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS




El condenado


Aprovecho mi tiempo descifrando las manchas
de la pared, visión de abortada pintura:
bocas que ven, narices que muerden, sensaciones
vivas bajo la cal, llagas abiertas.

¿Soy yo mismo estampado en este muro,
con mis grandes heridas,
con mis grandes pasiones partidas de alto a bajo,
mis arrugas, mis costras?

Reconozco mis labios en esos agujeros
por donde entran y salen las arañas.
Reconozco mis grandes defectos reunidos
en un solo sepulcro.

Allí están mis errores: mi olfato sin perfume,
mis ojos como huecos, y mis orejas sordas.
Si no hubiera nacido, no sería culpable,
ni me viera en el muro.

¿Soy un hombre clavado en estos metros
de madera y estuco, amortajado?
¿Mas cómo puedo verme si estoy muerto
debajo de estos signos tumultuosos?

¡Oh movimiento libre de las formas,
vivos monstruos sellados en relación confusa
de color y sabor, y lenguas amputadas
para que hable el misterio!

Cavernas, pensamientos carcomidos,
espejos miserables de la ruina del hombre.
Trinidad de los cielos: aquí el vicio,
y el odio, y el orgullo.

Condenado a pan y agua
por descifrar las manchas de este mundo,
veo correr al hombre desde la madre al polvo,
como asqueroso río de comida caliente
que inunda los jardines, los cementerios, todo,
y arrasa con la vida y con la muerte.



Gonzalo Rojas (Chile 1917/2011)
do Livro Antología del Aire

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POR QUE ESCREVO?

   
   Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros,
e a poesia ou a literatura uma borboleta que,
pousando-me na cabeça, me torne tanto mais
ridículo quanto maior for a sua própria beleza.


Fernando Pessoa  (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935) 

do LIVRO DO DESASSOSSEGO.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS



Fotografía
de la muchedumbre

En la fotografía de la muchedumbre
mi cabeza es la séptima de la orilla,
o tal vez la cuarta a la izquierda,
...o la veinte desde abajo;

mi cabeza no sé cuál,
ya no una, no única,
ya parecida a las parecidas,
ni femenina, ni masculina,

las señales que me hace
son ningunos rasgos personales;

quizás la ve el Espíritu del Tiempo,
pero no la mira;

mi cabeza estadística
que consume acero y cables
tranquilísima, globalísimamente;

sin la vergüenza de ser una cualquiera,
sin la desesperación de ser cambiable;

como si no la tuviera en absoluto
a mi manera y por separado;
como si se hubiera desenterrado un cementerio
lleno de anónimos cráneos
en un aceptable estado de conservación
a pesar de su mortalidad;

como si ya hubiera estado allá
-mi cabeza, una cualquiera, ajena-

donde, si recuerda algo,
sea tal vez el profundo futuro.


 Wislawa Szymborska (Polonia, 1923)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


La poesía es mi lengua

Ab
Abro mis labios, y deposito en la atmósfera un torrente de sol,
como un suicida que pone su semilla
en el aire cuando hace estallar sus sesos en el resplandor del laberinto.
Ya sé que el sol de la muerte me está haciendo girar en un eterno proceso
de rotación y traslación llamado falsamente Poesía.
A veces, como hoy, esta aparente confusión me hace reír a carcajadas.
Este torbellino de palabras volcánicas como una erupción,
que son una amenaza para los sacerdotes del soneto y el número.

Pero es un sol innumerable lo que me sale por la boca,
como un vómito de encendido carbón qué me abrasara las ideas y las vísceras.
Estoy perdido para el mundo,
aunque mi reino sean todos los mundos posibles,
porque yo soy el testigo de mi propia creación.
Mi creación es mi pasión. Por eso hago soplar los vientos
para que deen testimonio de mis llamas.

do livro "La Miseria del Hombre" (1948)
Gonzalo Rojas (Chile - 1917/2011)





terça-feira, 23 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


QUÉ SE AMA CUANDO SE AMA?

Que se ama cuando se ama, mi Dios: la luz terrible de la vida
o la luz de la muerte? Qué se busca, qué se halla, qué
es eso: amor? Quién es? La mujer con su hondura, sus rosas, sus volcanes,
o este sol colorado que es mi sangre furiosa
cuando entro en ella hasta las últimas raíces?

O todo es un gran juego, Dios mío, y no hay mujer
ni hay hombre sino un solo cuerpo: el tuyo,
repartido en estrellas de hermosura, en partículas fugaces
de eternidad visible?

Me muero en esto, oh Dios, en esta guerra
de ir y venir entre ellas por las calles, de no poder amar
trescientas a la vez, porque estoy condenado siempre a una,
a esa una, a es única que me diste en el viejo paraíso.

Gonzalo Rojas (Chile - 1917/2011)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

ACERCA DEL VIVIR

                   III

Se enfriará este mundo,
una estrella entre las estrellas;
por otra parte una de las más pequeñas del universo,
es decir, una gota brillante en el terciopelo azul,
es decir, este inmenso mundo nuestro.
Se enfriará este mundo un día,
algún día se deslizará
en la ciega tiniebla del infinito
-no como una bola de nieve,
no como una nube muerta-,
como una nuez vacía.
Desde ahora mismo se ha de sufrir por todo esto,
ha de sentirse su tristeza desde ahora,
tanto ha de amarse el mundo en todo instante,
se le ha de amar tan conscientemente
que se pueda decir: He vivido.

NAZIM HIKMET (Salónica, actual Tesalónica, en Grecia, 1902- Russia 1963)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS



ACERCA DEL VIVIR

              II

Sucede, por ejemplo,
que estamos muy enfermos;
que hemos de soportar una difícil operación;
que cabe la posibilidad de que no volvemos a levantarnos de la blanca mesa.
Aunque sea imposible no sentir la tristeza de partir antes de tiempo,
seguiremos riendo con el último chiste,
mirando por la ventana para ver si el tiempo sigue lluvioso,
esperando con impaciencia
las últimas noticias de prensa.
Sucede, por ejemplo, que estamos en el frente,
por algo, por ejemplo, que vale la pena que se luche.
Nada más comenzar el ataque, al primer movimiento,
Puede caerse cara a tierra, y morir.
Todo esto hemos de aceptarlo con singular valor,
y a pesar de todo, preocuparnos apasionadamente
por esa guerra que puede durar años y años.
Sucede
que estamos en la cárcel.
Sucede
que nos acercamos
a los cincuenta años,
y que falten dieciocho más
para ver abrirse las puertos de hierro.
Sin embargo, hemos de seguir viviendo con los de fuera,
con los hombres, los animales, los conflictos y los vientos,
es decir, con todo el mundo exterior que se halla tras el muro de nuestros sufrimientos;
es decir: estemos donde estemos hemos de vivir
como si nunca hubiésemos de morir.

(continuará)

NAZIM HIKMET (Nacido en Salónica, en época del Imperio otomano - actual Tesalónica, en Grecia -- Russia 1963)

Quadro: "Yo Pecador" de Miguel Oscar Menassa

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS



SOBRE LA VIDA


No es chacota la vida.
La tomarás en serio,
como lo hace la ardilla, por ejemplo,
sin esperar ayuda ni de aquí ni de allá.
Tu más serio quehacer será vivir.


Nos es chacota la vida.
La tomarás en serio,
pero en serio a tal punto 
que, puesto contra un muro, por ejemplo,
con las manos atadas,
o en un laboratorio,
de guardapolvo blanco y con grandes anteojos,
tú morirás porque vivan los hombres,
aun aquellos hombres
cuyo rostro ni siquiera conoces.
Y morirás sabiendo, ya sin ninguna duda,
que nada es más hermoso, más cierto que la vida.


La tomarás en serio,
pero en serio a tal punto 
que a los setenta años, por ejemplo,
plantarás olivares,
no para que les queden a tus hijos,
sino porque, aunque temas a la muerte,
ya no creerás en ella,
puesto que en tu balanza
la vida habrá pesado mucho más.


Nazim Hikmet (Turquía 1902 - Rusia 1965)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO CERO

                SÃO QUINZE


São quinze os sobreviventes
na travessia da África para a Itália
a balsa que carregava o futuro
para uns ficou na história.

São quinze os sobreviventes
no caminho da liberdade
mais de trinta morreram
mas até a morte se enche de vida
quando valiosa a causa.

Quinze marcas de um passado de fome
ardendo de querência
buscam solo democrático.

Quinze restos de ternura
endurecidos
diante horror na madrugada
companheiros que sucumbiam
na travessia ao exílio.

Quinze dores
cinzas dos genocídios
das atrocidades,
como migalhas
no chão da civilização.

Quinze almas perdidas
de nossas guerras
pó no vento.

Lúcia Bins Ely
Publicou: Arado de Palavras (com outros autores) e nas Revistas Água Viva.

terça-feira, 26 de julho de 2011

CONVITE


O Grupo Cero é gestor do Porto Poesia desde seu primeiro evento (este ano será o quinto em outubro)
Hoje à noite será o lançamento do Jornal PORTO POESIA, com poemas ibero-americanos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

POR QUE ESCREVO?

Ainda que minha formação tenha sido mais musical do que literaria, me decidi a escrever por uma necessidade que respondia, sem dúvida, a um vocação mais profunda. Uma vez que me interessava pelo estudo do contraponto e da fuga de uma maneira totalmente objetiva (igual ao interesse pela arquitetura, já que sou filho de arquiteto), me apaixonei pela literatura por outras razões... Estou convencido de que na América Latina o romance responde a uma 'necessidade', e de que não se trata tanto que se realize no plano de uma estética literaria qualquer, e sim se cumpra uma 'fixação'. O romance sul-americano tem todo um mundo por 'revelar'. Sobretudo se se pensa que nossos primeiros romances só datam de um século atrás, e que somente agora é que os escritores sul-americanos tomaram consciencia do verdadeiro significado do seu trabalho.

Alejo Carpentier y Valmont (Havana, Cuba, 1904 - Paris, 1980)
Havana: Letras Cubanas, 1985.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO CERO



RAIZ DO GRITO


1.

O prato de sal
mantém esguio
e com flores na boca
o corpo que leva a navalha
do homem  que  vai

os pés sob o berço das facas
e toda a nau que ao cravo do corpo
importa, sua casa de mortos na beira da rua,
clarinetes emaranhados em ovelhinhas de lã   

revém do arroio a navalha que empurra
vem rever a revelha de pão e sua capa
com tolices nos bolsos:
armazéns onde se vendem unhas
domingos de guarda-chuva, mesa para seis netos, e,
bem ao lado da vinha,
dois caixões
cujos braços foram atados

as uvas nunca foram consolo do corpo que
tem por costume a solidão da navalha
e vai negro levar a agua do ferrador 


(continuará)


Eliane Marques


Publicou: Relicário (2009), Arado de Palavras (vários autores) e nas Revistas Água Viva

terça-feira, 28 de junho de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

PANORAMA CEGO DE NOVA YORK
(continuação)

Não, não são os pássaros.
Não é um pássaro o que expressa a turva febre da laguna,
nem a ansia de assassínio que nos oprime a cada momento,
nem o metálico rumor de suicidio que nos anima a cada madrugada.
É uma cápsula de ar onde nos dói o mundo todo,
é um pequeno espaço vivo ao louco uníssono da luz,
é uma escada indefinível onde as nuvens e rosas olvidam
à gritaria chinesa que ferve no desembarcadouro do sangue.
Eu muitas vezes me perdi
para buscar a queimadura que mantém despertas as coisas
e só encontrei marinheiros atirados sobre as varandilhas
e pequenas criaturas do ceu enterradas sob a neve.
Mas a verdadeira dor estava em outras praças
onde os peixes cristalizados agonizavam dentro dos troncos;
praças do céu estranho para as antigas estátuas ilesas
e para a terna intimidade dos vulcões.

Não há dor na voz. Só existem os dentes,
mas dentes que calarão isolados pelo raso negro.
Não há dor na voz. Aqui só existe a Terra.
A terra com suas portas de sempre
que levam ao rubor dos frutos.

FEDERICO GARCIA LORCA (Granada, 1898 - Granada, 1936)
do Livro:  "Poeta em Nova Iorque"

sábado, 25 de junho de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

PANORAMA CEGO DE NOVA YORK
Se não são os pássaros
cobertos de cinza,
se não são os gemidos que golpeiam as janelas da boda,
serão as delicadas criaturas do ar
que manam o sangue novo pela escuridão inextinguível.
Mas não, não são os pássaros,
porque os pássaros estão prestes a ser bois;
podem ser rochas brancas com a ajuda da lua 
e são sempre rapazes feridos antes que os juízes revelem a teia.

Todos compreendem a dor que se relaciona com a morte,
mas a verdadeira dor não está presente no espírito.
Não está no ar nem em nossa vida,
nem nestes terraços cheios de fumaça.
A verdadeira dor que mantém despertas as coisas 
é uma pequena queimadura infinita
nos olhos inocentes do outros sistemas.

Um traje abandonado pesa tanto nos ombros
que muitas vezes o céu os agrupa em ásperas manadas.
E as que morrem de parto sabem na última hora
que todo rumor será pedra e toda pegada latido.
Nós ignoramos que o pensamento tem arrabaldes
onde o filósofo é devorado pelos chineses e larvas.
E alguns meninos idiotas encontraram pelas cozinhas
pequenas andorinhas com muletas
que sabiam pronunciar a palavra amor.
(continuará)
FEDERICO GARCIA LORCA (Granada, 1898 - Granada, 1936)
do Livro:  "Poeta em Nova Iorque"