quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

DESPEDIDA DE UM ANCIÃO


Ventam lágrimas em espiral,
de meu peito
a sombra do tempo
espelhada

caio da asa,
da meada da língua,
que ali jazia.
(Poema de Mára Bellini; Óleo sobre tela "A Noite Estrelada", de Vincent Van Gogh)

PALAVRAS DE UMA CRIANÇA QUE NASCE


maluco desafinado
cantava com seus olhos
sujeito musical sem lida,
esse tipo escrevia sobre o vento
explicando o alto e o baixo
metade frio, metade comedido

tudo vozes dos pelicanos


Renato Battistel

ANO NOVO COM MARIO QUINTANA



Transcendência
Mas um belo poema - já não será a Outra Vida?

(Poema de Mario Quintana, do livro "A Vaca e o Hipogrifo", p. 139; óleo sobre tela de Henri Rousseau " A Cigana Adormecida")



terça-feira, 30 de dezembro de 2008

CARTA DE FREUD A EINSTEIN (1ª parte)


O PORQUÊ DA GUERRA

1932 [1933]

Viena, setembro de 1932

Estimado Senhor Einstein:

Quando me inteirei de que você se propunha a me convidar a trocar idéias sobre um tema que ocupava seu interesse e que também lhe parecia ser digno do alheio, manifestei com prazer minha aprovação. Sem dúvida, esperava que você elegesse um problema próximo aos limites de nosso atual conhecimento, um problema diante do qual cada um de nós, o físico como o psicólogo, pudesse costurar um acesso especial, de modo que, acudindo de distintas procedências, se encontrassem num mesmo terreno. Em tal expectativa, me surpreendeu sua pergunta:

QUE PODERIA SE FAZER PARA EVITAR AOS HOMENS O DESTINO DA GUERRA?

Em princípio fiquei assustado sobre a impressão de minha – quase houvera dito: " de nossa" - incompetência, pois aquela me parecia uma tarefa prática que corresponde aos homens de Estado. Porém logo compreendi que você formulava a pergunta menos como investigador da Natureza ou físico e mais como amigo da Humanidade, respondendo ao convite da Liga das Nações, à maneira de Fridtjof Nansen, o explorador do Ártico que tomou a seu encargo a assistência das massas famintas e das vítimas refugiadas da Guerra Mundial. Ademais, refleti que não se me pedia a formulação de propostas práticas, se não que apenas havia de rascunhar como se apresenta a consideração psicológica do problema de prevenir as guerras.

Mas você em sua carta expressou já quase tudo o que poderia dizer a respeito. De certa maneira, você me tirou o vento das velas, porém de bom grado navegarei em sua estrela e me limitarei a confirmar o que você enuncia, tratando de explaná-lo segundo minha melhor ciência ou presunção.

Você começa com a relação entre Direito e Poder: Está aqui, por certo, o ponto de partida mais adequado para nossa investigação. Posso substituir a palavra "poder" pelo termo, mais rotundo e mais duro, "força"? Direito e força são hoje para nós termos antagônicos, porém não é difícil demonstrar que o primeiro surgiu do segundo, e retrocedendo até as origens arcaicas da Humanidade para observar como se produziu este fenômeno, a solução do enigma se nos apresenta sem esforço.
(continua amanhã)

(Sigmund Freud, Obras Completas, 3, Biblioteca Nueva, Editorial El Ateneo, p. 3207 e 3208; tela, Expulsão de Adão e Eva do Paraíso, de Tommaso Masaccio)

CARTOLA com MARCELA VILLaVELLA


AS ROSAS NÃO FALAM (fragmento)

Queixo-me às rosas,
que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas
exalam
O perfume que roubam de ti
Ai, devias vir
Para ver os meus olhos
tristonhos
E, quem sabe, sonhavas
meus sonhos
Por fim

(Cartola – BMG Music Publishing Brasil)

ASSIM É A ROSA …(fragmento)

Numa manhã de verão
não haveria que temer …
porém um golpe é um golpe
ainda que venha de tua mão.
Assim é a rosa.

(Marcela Villavella, ASI ES LA ROSA, p. 12, Editorial Grupo Cero)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

MONÓLOGO ENTRE A VACA E O MORIBUNDO (terceira parte)


E isso é por fim uma aposta, já que neste século que agoniza ninguém, nem os estados mais poderosos puderam mudar a realidade.
O homem era uma merda o século passado, e segue sendo uma merda.
Modificar meu eu, isso dizíamos nas linhas anteriores, e o único que me ocorre é ganhar mais dinheiro, para ter mais dinheiro para poder repartir por mais pessoas que eu, deus e minha mamãe.
Quero modificar o meu eu mesmo e não o encontro em nenhuma parte, porém deixo escapar as palavras como se fossem bolhas de sabão que uma vez produzidas, todavia, precisam do vento para voar, e me detenho nessa sabedoria extraordinária do século morrente e me digo em voz alta:
- Um menino hoje é uma boca que devemos alimentar porque amanhã essa boca será dois braços que darão de comer a dez bocas.
Fui pela vida montado nessa frase que li aos 14 anos, por casualidade e sem intervenção aparente de cúmplice algum, e atribui não sei por que motivos a Mao, porém essa frase não levava em conta a inveja.
Me vi dando de comer a uma boca que para seguir sendo boca ia cortando os seus braços à medida que cresciam, para não dar de comer a ninguém, para sentir-se frente a mim a única criança do mundo.(fragmento do texto XXXVII, do livro "Monólogo entre a Vaca e o Moribundo", p. 108, de Miguel Oscar Menassa, tela de Frida Khalo)

UMA NEUROSE DEMONÍACA NO SÉCULO XVII






Orações de um senhor arrependido

No dia 05 de setembro de 1677, o pintor bávaro Cristóbal Haitzmann foi levado à Mariazzel, com uma carta de apresentação do pároco de Pottenbrunn.

O pintor se dedicara à arte, durante vários meses de sua residência em Pottenbrun, quando, no dia 29 de agosto anterior àquela data, encontrando-se na igreja, viu-se acometido de terríveis convulsões.

Ao se repetirem tais ataques o padre, examinando-o, encontrou a seguinte carta:

1. Quando o diabo me rondava
anunciando seus rigores

Senhor, enferruja meus garfos e medalhas, estraga
[estes molares,
enlouquece meu barbeiro, os servos
sejam mortos em suas camas de madeira, mas
[livra-me do Diabo.
Com seu cheiro de cachaça e os cabelos enlameados
se aproxima de minha casa, já o surpreendi
caído entre os vasos de gerânios, enrugado e nu.
Estou um pouco gordo, Senhor, espero teus
[rigores, mas não tantos.
Envelheci nas batalhas, os ídolos morreram.
Agora espanta o Diabo, lava estes gerânios e meu
[coração.
Faça-se a paz, amém.


(Fragmento adaptado do texto de Sigmund Freud “Uma neurose demoníaca no Século XVII” (1922[1923]), com inclusão do poema de Antonio Cisneros, “Orações de um Senhor Arrependido” do livro Sete Pragas Depois, p. 19 e tela de Caravaggio)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Detrás del Silencio"

"Detrás del silencio lo único que puede ocultarse es la muerte. Abrigue la esperanza de poder y podrá. Nos se deje estar, no espere ayuda, la cultura siempre en todos los tiempos estuvo en contra de sus poetas, sobre todo cuando éstos, esgrimían la poesía como crítica a los sistemas imperantes. No quiero decir que sea un crítico de la sociedad contemporánea, pero sí un poeta preocupado de una manera especial por la sociedad contemporánea. Algo habré de decir entonces algún día que hiera la sensibilidad de los poderosos. Algo habré de decir algun día que atente contra la ley de los poderosos. Y esos dos delitos son absolutamente imperdonables por los poderosos. Así a callar. Bueno, bueno, no es para tanto. Usted si quiere puede escribir lo que ve y después no publicarlo o hacer que otra gente se ocupe de semejante riesgo. Escriba y después rompa, alguien en usted se acordará algún día que eso estuvo escrito, que alguien ya vivió esa crueldad, que alguien ya fue castigado alguna vez por el silencio."
MIGUEL OSCAR MENASA
En: EL OFICIO DE MORIR

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL A ALLEN GINSBERG (com KAFka)




poema beat 1

a rua de barro negro
anjo no crânio
a mirar o tempo-diário

o cemitério de verdes lápides
catástrofe no hidrogênio da vitrola
batalhão em busca do ouro

que atropela
o táxi bêbado
da absoluta
realidade

conversa de arlequim pedindo suicídio
a lobotomia imediata e calva exceto
pela peruca de sangue que roça amarela
num cabide de arame de armário

e, afinal, se nem sinal de sereias,
tomo um postal de penélope e me detenho
que no caminho do medo a vida furta
as mãos vazias de um poema

Eliane Marques

MONÓLOGO ENTRE A VACA E O MORIBUNDO (segunda parte)

QUERIDA VACA:

23 de dezembro de 2008


Com essas duas medidas simples que implicam troca atroz de minha personalidade, tudo seria diferente.
Se fosse capaz de dizer a todos que estão loucos, que estão loucos, e aos que têm idéias políticas diferentes das minhas com relação à transmissão da psicoanálise, que temos idéias políticas diferentes ...
Se pudesse, que não posso, essas duas medidas tão simples, em aparência, quem sabe quem ficaria ao meu lado?
Acabo de me dar conta de que não tenho de tocar nada, se algo quero tocar, tenho que tocar a mim mesmo.

Segue sendo o mesmo dia,
porém já são dez da noite.

Todo o dia como aniquilado por minhas próprias estupidezes.
Já temos todos 60 anos ou quase, já ninguém pode mudar demasiado, e os jovens que nos rodeiam já têm nossos vícios, creio que nos fica uma só possibilidade:
Desta vez, querida vaca, toca mudar a realidade.

(fragmento do texto XXXVII, do livro "Monólogo entre a Vaca e o Moribundo", páginas 107 e 108, de Miguel Oscar Menassa)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ILUSÕES DO COTIDIANO


NATAL A NELSON RODRIGUES

Dorotéia


barbas bíblicas
ceiam do senhor
a dona da casa
em palavrões
contra os relógios

de cada enterro
as dores
nos serviços pequenos
da casa

à noite de núpcias
estrela vadia
flores cansadíssimas
da madrugada

claro do sono dos círios
águas – proas
vôos de horizonte
na parede sem flor

onde havia vôo
onde havia horizonte
rotinas

morte sem botinas
rendas antigas
bordados espelhos
contra mim

à ênfase dos retratos
os quartos morreram
e só
a sala pervive
eliane marques

MONÓLOGO ENTRE A VACA E O MORIBUNDO



Querida Vaca:

22 de dezembro de 2008


Descumprindo as regras de etiqueta, te escrevo antes de receber tua carta.
Sei que tenho de mudar quase todos os fundamentos da minha vida atual, porque minha vida atual é atual, e seus fundamentos, antigos, ou pelo menos, não atuais.
Chefe de um discurso quer dizer, de maneira fundamental e atual, chefe.
E não quer dizer homem sensibilizado pela radiação atômica, meio amariconado, de tanto impotente solto, de tanta mulher desesperada.
Um chefe tem direção, conceitos, opiniões, ainda que lhe caiba ser chefe de um Discurso Poético. Aí temos Breton, quando Artaud lhe perguntou se estava louco e Breton disse claramente: “Estás louco”. E à pergunta de Artaud de porque lhe dizia isso, Breton respondeu simplesmente como um chefe. “Porque estás louco”. E quando Aragon lhe perguntou: “Eu também estou louco?” Breton lhe disse tranqüilamente como um chefe. “Não, tu não estás louco, tu tens idéias políticas diferentes das minhas.”
(fragmento do texto XXXVII, do livro "Monólogo entre a Vaca e o Moribundo", p.107, de Miguel Oscar Menassa)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

LA VIDA VIVE EN MIS PALABRAS

La vida vive en mis palabras, el goce en mi voz
y vosotros, tendréis que resolver el acertijo.
Soy una herida abierta que sólo se repite sin dolor.
Soy una pulsación, sin ritmo, ni latidos.

Algo del ser que ya no fue sino representado.
Un hilo de luz en la montaña abierta y desolada,
pero sin que hubiera de haber desolación,
ni montaña, ni hilo, ni tan siquiera luz.

No soy el humo que parte de la llama y se disipa,
ni el grito que se arranca de la garganta para ser
ni el perfume que escapa de la piel del deseo.

Soy algo del humo, algo de la llama, que perdura:
lo que el grito no pudo asesinar de la garganta,
olor vacío de perfumes, agujero de piel, poesía.

miguel oscar menassa