quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

QUARTA-COM-CORTÁZAR









da seriedade nos velórios

Uma vez em que eu voltava da França a bordo de um dos distintos barquinhos da nossa Frota Mercante do Estado (Conheço o Rio Bermejo e o Rio Belgrano, lembro do capitão Locatelli especialista em begônias, do camareiro Francisco que era um galego desses que não existem mais e de um barman em cuja escola aprendi a preparar o Coração de Índio, coquetel que, como o nome indica, é popularíssimo na Bélgica) tive a ventura de compartilhar três semanas de bom tempo com o doutor Alejandro Gancedo, sua mulher e seus dois filhos, cada um deles mais cronópio que o outro. Logo se descobriu que Gancedo era da raça de Mansilla e de Eduardo Wilde, o perfeito causeur que com um copo e um havana nas mãos torna-se sua própria obra-prima e que, como o outro Wilde, emprega o gênio na vida embora em seus livros não falte talento.
De muitas das histórias de Gancedo conservo uma lembrança que prova a eficácia com que eram narradas (todo relato é como o relatam, a consciência de que fundo e forma não são duas coisas é o que caracteriza o bom narrador oral, que não se diferencia assim do bom escritor muito embora os preconceitos e os editores estejam a favor deste último). Dentre esses relatos escolho a história, sabendo que a estrago, de como uns conhecidos de Gancedo, que prudentemente chamarei de Lucas Solano e Copinho, foram a um velório e o que aconteceu lá.
Solano foi o encarregado de transmitir os pêsames em nome dos colegas de escritório do falecido, missão que o abrumou a ponto de buscar apoio moral no balcão de um bar da rua Talcahuano onde já estava Copinho em aberta demonstração de como era acertado o seu apelido. Na sexta grappa Copinho condescendeu em acompanhar Solano, levantar-lhe o ânimo, e os dois apareceram no velório com alto grau de emoção etílica. Copinho foi o primeiro a entrar na capela e, embora nunca tivesse visto o morto, aproximou-se do caixão, contemplou-o com austeridade e, virando-se para Solano, disse naquele tom que somente os defuntos suscitam e talvez ouçam:

_ Está idêntico.

Isto produziu em Solano um ataque de hilaridade que só conseguiu abraçando estreitamente Copinho, que, por sua vez, chorava de rir, e assim ficaram durante três minutos, com os ombros sacudidos por estremecimentos terríveis, até que um dos irmãos do falecido que conhecia vagamente Solano se aproximou para consolá-los.

_ Acreditem, amigos, eu jamais imaginaria que gostassem tanto do Pedro no escritório – disse. – Como ele quase nunca ia...

(de Julio Cortázar, do livro”A volta ao dia em 80 mundos”, Civilização Brasileira, 2008, p. 53 e 54)

Um comentário:

marcela disse...

es genial este escrito, quiero mas de cortazar para el mundo... gracias versob