sábado, 30 de maio de 2009

na cadeira do sonho

(Debret)

ONDE MERENDA A MORTE

Madeira de olhos úmidos e meninos escondidos entre as frestas nas noites de chuva, deixando-se escapar apenas ao amanhecer, para se alimentarem do café com farinha e da terra do chão batido pelas tamancas da dona da casa. Habitavam esse casebre mutilado pela obstinação da vida, além deles, as várias Carachas daquela fronteira de guerras inacabadas. Os maridos também eram vários, nenhum oficial, de papel passado, como diriam as vizinhas que buscavam saber dos amores jamais sofridos. Eles, por sua vez (os amores), pouco se importavam com a pluralidade da palavra para a mulher de pele de escamas de peixe, lenço florido sobre os cabelos quase inexistentes e um dente para mastigar o guisado ralo dos domingos, uma mulher grande e trabalhadeira que gostava de limpar a casa sexta à noite para namorar, em cada sábado, o marido correspondente, geralmente um marceneiro, que fingia calar as patas da cama queixosa da solidão dos abismos; ou um açougueiro, responsável pelos ossos que matavam a dor ingênua das crianças; ou um pedreiro, especialista em pendurar pregos nos dedos da amante como se fossem pequenos anéis de prata.
A Caracha trabalhava numa “casa de família”. Era criada de 1 mulher, 1 marido, 3 filhos homens e 1 cachorro Malcriado. Arrumava, a cada dia que deus tirava do mundo, 4 camas de casal, lavava milhares de roupas, varria o pátio dos fundos e o da frente, planchava cuecas de todas as cores, inteiras ou furadas, cozinhava todas as manhãs e todas as tardes juntava da sala e enterrava na areia o coco do Malcriado.
A Mulher Grande e Trabalhadeira era incapaz de recolher, guardar e levar à sua morada, “que não era de família”, qualquer dinheiro encontrado e que não fosse seu. Às quartas-feiras, até a linha da desconfiança estragar a bondade da patroa, retirava do armário um quilo de arroz e o colocava na frente da Casa para que, no horário certo, os lixeiros o levassem. Esse grão magro, branquelo e sem gosto, alimentava os filhos dela até a próxima quarta-feira, quando voltavam a se fantasiar da profissão que tinha por lema, escrito com grandes letras no caminhão que vomitava sacolas de dejetos pelas calçadas, “povo limpo, cidade educada”.
Uma vez por ano havia churrasco na casa da Doméstica. Mas o evento durou até os idos de 1983, quando, presumindo que algo faltara na panela, a madame revistou, por acaso, a bolsa da Caracha e encontrou o pedaço de carne que seria do churrasco. A mulher de “família”, e não dada a escândalos, e nem a “meter a boca” como sói as negras e pobres costumam fazer, devolveu delicadamente a jóia (de carne) ao seu lugar e, claro, nada disse à criminosa. Essa má entendedora para a qual nenhuma palavra fora bastante nunca mais voltou ao emprego ou fez churrasco anual, por que boa era a carne que Dona Aninha comprava.
Volta e meia confundiam a Caracha com um homem chamado Gaspar. Certa feita, vagabundos que bebiam num bar de esquina resolveram apostar um litro de cachaça para quem adivinhasse a charada: aquilo que descia do ônibus “Wilson” e seguia em direção à Rua Brasília era o Gaspar ou a Caracha? Até hoje ninguém sabe a resposta, mas recebeu o litro de pinga o sujeito que optou pela lógica da masculinidade: “Só podia ser a Caracha, pois, ainda que de vez em quando usasse tamanco, o Gaspar jamais se enfeitaria com um lenço vermelho no cabelo e nem pintaria as unhas de rosa”.
No período anterior ao carnaval (quaresma, diria algum padre) a Mulher Grande e Trabalhadeira aproveitava à estranha semelhança com Gaspar e ocupava seu lugar nas obras de construção civil da fronteira. Enquanto o verdadeiro rei mago dormia, a madalena recebia o dinheiro para pagar à costureira sua roupa de foliã. O Gaspar bem que ficara desconfiado da fama de bicha que lhe passara a pesar sobre as tamancas, mas nunca quisera saber o motivo, afinal a injustiça lhe permitira mais autenticidade na fantasia durante o desfile de seu bloco.
A verdade é que Caracha tinha um amante fiel e pai de seus filhos, ou, pelo menos, de alguns. Chamava-se Duque, um homem muito bom e muito bêbado, que sofria a perda de cada filho como o descolar de 1 unha do dedo do pé quando se usa um sapato apertado ou quando ela é pisada por um salto de mulher com raiva.
Embora desconhecesse remédio para a vida, o Duque dispunha de artimanha contra a morte – colocava o pequeno falecido num caixãozinho de madeira e, com ele debaixo do braço, saía para beber em qualquer boteco que estivesse aberto no Bairro da Carolina. O ritual ficava melhor quando encontrava a mãe da criança que, surpreendida por ver o desamparado naquele ataúde, já tão tarde e com tanta fome, saía pelo descampado em busca da merenda do dia. Jamais a encontrava e sempre voltava para esse deslugar de fronteira e sem paz com as mãos ensopadas de sangue.

Eliane Marques

Um comentário:

marcela disse...

Que buen escrito, parece una novela, gostaria de seguir leyendo esa historia.