sexta-feira, 13 de março de 2009

era uma vez...


CABELO DE FOGO

(de Eliane Marques)

Minha mãe acendera vela ao Santo. Pedia à entidade mais roupas sujas e menos chuva de tormentos. Enquanto dormia, o santo, até hoje inominado, trabalhava para atender à prece. Num descuido de apressamento, havia outros pedidos urgentes, bateu na vela do sacrifício que desmaiou sobre a boca da caixa de charutos na qual pairava. Contaminou-se de fogo fátuo a casa inteira. Tudo era fumaça e gritedo. Minha mãe, tias e a “abuela” corriam com baldes de água para aplacar a histeria das chamas. O criminoso fugira com medo do flagrante – deus fora chamado, com urgência, para derramar com mais vontade sua raiva contra as labaredas. Cada mulher tirava forças dos retratos viúvos que dormiam bravos no corredor das águas para, das gotas rancorosas, fazer carro de bombeiro. Entre elas havia um guri mais novo, de cabelo de fogo crespo, baixo e socadiço. Vendo aquele movimento de formigas em procissão, do alto da sede do sono quis saber:

- Já que vocês estão nesse vaivem, podem me atirar um copo dágua também.

2 comentários:

Mara faturi disse...

Texto interessante...quente como o dia (13), gostei! Parabéns,
bjo

Ana disse...

Adorei o texto, eu e minha mãe rimos muito>>> Muito bom mesmo!!!