sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ERA UMA VEZ...

JASMIM
de Eliane Marques

A Jovina era magrinha e de cabelo black muito grande, parecia carregar uma lua cheia e crespa na cabeça. Lembro de sua figura esguia metida num macacão azul escorrendo pelo corredor da casa da minha avó no dia do velório de Bonaventura, meu avô. Nesse dia, enquanto os adultos rezavam pelo desaparecido, as crianças brincavam de passar o anel. “Passa, passará, pelo último ficará, a porteira está aberta para quem quiser passar ... Passa um, passa dois ...” Não, essa não é a brincadeira do anel ... “Passa três, emboca quatro”. Eu a esqueci quando dessa minha primeira morte. Sentada nas pedras da frente da casa como se estivesse num sofá da Idade Média eu tentava adivinhar quem seria o próximo a ter seu nome no livro preto posto numa espécie de púlpito à entrada de onde se realizavam as exéquias. Desejava que fosse o nome do meu pai.
A Jovina vivia com um homem-deixado-da-mulher, um homem branco. A casa deles ficava próxima à da mulher-deixada, que era branca também. Certa feita Jovina estava deitada, era domingo ou dia feriado no qual os orixás depositam suas armas sem o temor da segunda-feira. Um gato preto, saído de alguma história que espera ser contada, atravessou o corredor do quarto onde ela dormia, o bicho tinha a rapidez da linha preta a atravessar a cabeça da agulha. O “talzinho” se instalou no pátio dos jasmins ainda adormecidos. No dia imediato à visita felina Jovina não alimentou seus orixás. Não houve médico ou macumba que fizesse cessar a dor de Aquiles guerreando na sua cabeça. Resolveu agarrar-se à esperança de minha tia Negrinha e seus encantamentos de menina – má. Viajaram a Montevidéu, clandestinas, a Jovina, a Rosaura, sua mãe, e a Jandira, sua irmã. Foram numa combe, a Jandira, na parte traseira, cuidava da doente, e minha tia, na frente, pedia pressa ao motorista – queria ganhar da morte pelo menos essa partida.
Chegadas a Montevidéu, procuraram o terreiro de Negrinha. Um portador-de-más-notícias anunciou que a mãe de santo viajara a Buenos-Aires. Tambores soaram nesse instante e filas de negros desenterraram suas vestes sedentas de ritos olvidados. Hospital nenhum aceitou aquela paciente de oco de dança na cinza. Minha tia, presa ao teto do socorro pedia escuro. E entravam médicos que expunham os limites de sua ciência. E o teto ouvia a filha se esfregando no oco de um pesadelo que alguém inventara e lhe impusera como seu.
Por que os exilados da vida não portam documento, Jovina foi enterrada com o nome de sua irmã, Jandira Maria. A Maria vive hoje em Sant’Ana do Livramento, é doceira. A Jandira tem seu nome no "livro dos mortos" em algum morredeiro de pobres de Montevidéu.
O bicho. O bicho, dizem, era da mulher-deixada. Desconfio de uma promessa aos santos em troca de felicidade ou da querência de algum miado de gato que aportasse alívio à sua solidão.

2 comentários:

Fernanda Nunes disse...

Li "Era Uma Vez..." de uma vez só, quase sem respirar. Incrível a faciliade que Eliane tem par dar concretude à vida e à morte, quando me parecem tão irreais estas duas irmãs malditas. "Porque os exilados da vida não portam documentos" é uma da mais belas armações de palavras que já vi. Pura poesia.

Fernanda Nunes disse...

Em comentário anrterior tratei de situar o texto de Eliane Marques apenas nas Seção "Era Uma Vez", sem destacar o título "Jasmin". Talvez eu tenha matado o Jasmin antes mesmo que Jovina tivesse morrido.