quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A VERDADEIRA VIAGEM

(Parte 4)

Já nos perguntarão e nós diremos:
temos estado com o amor
e temos estado, também, com a morte.
No princípio não acreditarão,
dirão que para o homem é impossível.
Nos pedirão provas,
nós lhes mostraremos como se lhes mostrássemos o céu,
alguns poemas e conseguiremos com esse gesto,
que chegue até nós o tempo da burla.

Grandes embarcações que nada buscam,
- porque creem ter -
passarão uma e outra vez a nosso lado,
tratando de fundir com seus jogos,
nossa pequena balsa enamorada.
Nos chamarão desde suas luxuosas embarcações,
com os nomes com os quais se nomeiam os desperdícios.
Poetas. Loucos. Assassinos.
E na algaravia estúpida de seus jogos,
tudo será possível. Nos atirarão algumas pedras
e se dirão, nada os ofende e enfurecidos,
nos gritarão: Combatei covardes! Defendam-se.

E depois de mil vezes e outras mil,
com os olhos desorbitados pelo cansaço
e também pela surpresa de ver,
nossa pequena balsa enamorada seguindo seu caminho
e nós, tranquilamente, sobre ela, remando.

Depois de ter atravessado ilesos o caminho da batalha,
virá, lhes asseguro, o tempo do ouro.

Eles, aborrecidos de suas próprias risadas,
quererão jogar o nosso jogo.
Quanto custa essa madeira a ponto de apodrecer
que usais de embarcação? e quanto vossa vida?
Quanto essas velhas cartas de navegação?
E quanto esses poemas?
Custam, senhor, o que custa a um homem,
deixar de se pertencer e entregar-se ao poema.
Quanto dinheiro custa isso?
                                         Todo e nenhum.
Talvez sua própria vida, acaso.
Quanto dinheiro custa minha vida, então?
Todo e nenhum. Sua vida são palavras como todas as vidas
e isso, tenho entendido, vale nada.
E quanto dinheiro custa pensar assim?
Todo e nenhum. Quem sabe há que submergir,
remar e não esperar nada. Isso custa.
Submergir e não esperar nada, nas trevas,
para outra obscuridade maior, o poema.

Uma vez enamorados o amor e a morte
e rechaçados o ouro e a batalha por impuros,
virá e de nenhuma parte,
- porque ela viveu sempre em nós -
a loucura.
              O pior de todos os estreitos,
surge imprevisto,
por ser lei de seu destino, a surpresa.
E não vem por nenhuma briga,
porque traz o desejo de travar amizade com o poeta.

E quando chega nos diz entre sussurros,
que seu mundo e o mundo da poesia,
são o mesmo mundo.

Diante da dúvida há que seguir remando.

Informe, se deixa moldar por nossas palavras,
e no tempo ela, também, tem sua grandeza.
Eu sou do amor, nos disse, esse desenfreio
e a paixão eterna da morte.
Tenho por costume depreciar o ouro,
e no entanto,
as ânsias por matar que geram suas leis,
estão intoxicadas de loucura.
Aí, ela e a poesia se parecem.
A instantes de se juntar em nossa mirada,
como si fossem uma só coisa,
a poesia, velha loba do mar,
rema um trecho conosco para nos mostrar,
que a loucura, desde que chegou,
permanece no mesmo lugar da pequena balsa,
sem remar, recordando todo o tempo seu passado.

Contentes de ter compreendido a diferença,
encerramos à loucura num poema
e seguimos remando até que um dia,
convencidos de sua torpeza para a navegação,
a entregamos ao amor e à morte,
para que a loucura, aprenda a voar.

de MIGUEL OSCAR MENASSA
(do Livro: EL VERDADERO VIAJE, bilingue, Grupo Cero, 1988)

O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
apóie sua candidatura, escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829
e te diremos como.

4 comentários:

Sonhadora disse...

Muito lindo.Profundo


Contentes de ter compreendido a diferença,
encerramos à loucura num poema
e seguimos remando até que um dia,
convencidos de sua torpeza para a navegação,
a entregamos ao amor e à morte,
para que a loucura, aprenda a voar.

Adorei.

Beijinhos
Sonhadora

Grupo Cero VersoB disse...

Querida Sonhadora,

SIM!!! a poesia nos inunda e nos difunde para outros mares!

sim, a poesia nos deixa levar para além da loucura e deixamos-a num poema para voar...

e assim seguimos,
os poetas podem transcender este momento de encontro com a loucura..

beijos,
verso b

Fernanda disse...

Grande luta, por vezes parecendo perdida, mas sabendo guardar forcas com a convicao de que e' capaz , mas...[A vida não é um jogo seguro. Somos nós que temos de fazer nossas regras e mostrar aos outros como queremos que nos aceitem. Nos momentos de vitória, nao gastemos todos os trunfos, guardemos para os momentos fracos. E nos momentos fracos guardemos a força que usamos para vencer, para conseguirmos andar quando estamos de pé. Porque se esquecemos essa força quando nos sentimos bem, depressa seremos derrubados. E como é fácil esquecer as nossas fragilidades quando nos sentimos fortes!] parabens, gostei de toda esta caminhada... quando leio coisas que realmente gosto, fico feliz mas mais feliz fico por sentir que nao estou so' com certas convicoes. quase tudo o que leio aqui vai ao encontro de muita coisa que ja escrevi. obrigado

Grupo Cero VersoB disse...

Fernanda, querida,

sim, claro, não há que vascilar!

Com a loucura o encontro é desafiante, como o poeta nos diz
ela nos quer converncer,
mas a poesia é quem nos mostra o caminho:
a loucura não trabalha como nós a forjar um novo futuro,
está apenas a recordar o passado...
assim temos que diferenciar a loucura do trabalho que temos a empreender..
é só assim que a podemos entregar a um poema...
e lhe permitir voar!!!

bueno,
um forte abraço,