PANORAMA CEGO DE NOVA YORK
(continuação)
Não, não são os pássaros.
Não é um pássaro o que expressa a turva febre da laguna,
nem a ansia de assassínio que nos oprime a cada momento,
nem o metálico rumor de suicidio que nos anima a cada madrugada.
É uma cápsula de ar onde nos dói o mundo todo,
é um pequeno espaço vivo ao louco uníssono da luz,
é uma escada indefinível onde as nuvens e rosas olvidam
à gritaria chinesa que ferve no desembarcadouro do sangue.
Eu muitas vezes me perdi
para buscar a queimadura que mantém despertas as coisas
e só encontrei marinheiros atirados sobre as varandilhas
e pequenas criaturas do ceu enterradas sob a neve.
Mas a verdadeira dor estava em outras praças
onde os peixes cristalizados agonizavam dentro dos troncos;
praças do céu estranho para as antigas estátuas ilesas
e para a terna intimidade dos vulcões.
Não há dor na voz. Só existem os dentes,
mas dentes que calarão isolados pelo raso negro.
Não há dor na voz. Aqui só existe a Terra.
A terra com suas portas de sempre
que levam ao rubor dos frutos.
FEDERICO GARCIA LORCA (Granada, 1898 - Granada, 1936)
do Livro: "Poeta em Nova Iorque"
terça-feira, 28 de junho de 2011
sábado, 25 de junho de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
PANORAMA CEGO DE NOVA YORK
Se não são os pássaros
cobertos de cinza,
se não são os gemidos que golpeiam as janelas da boda,
serão as delicadas criaturas do ar
que manam o sangue novo pela escuridão inextinguível.
Mas não, não são os pássaros,
porque os pássaros estão prestes a ser bois;
podem ser rochas brancas com a ajuda da lua
e são sempre rapazes feridos antes que os juízes revelem a teia.
Todos compreendem a dor que se relaciona com a morte,
mas a verdadeira dor não está presente no espírito.
Não está no ar nem em nossa vida,
nem nestes terraços cheios de fumaça.
A verdadeira dor que mantém despertas as coisas
é uma pequena queimadura infinita
nos olhos inocentes do outros sistemas.
Um traje abandonado pesa tanto nos ombros
que muitas vezes o céu os agrupa em ásperas manadas.
E as que morrem de parto sabem na última hora
que todo rumor será pedra e toda pegada latido.
que todo rumor será pedra e toda pegada latido.
Nós ignoramos que o pensamento tem arrabaldes
onde o filósofo é devorado pelos chineses e larvas.
E alguns meninos idiotas encontraram pelas cozinhas
pequenas andorinhas com muletas
que sabiam pronunciar a palavra amor.
(continuará)
FEDERICO GARCIA LORCA (Granada, 1898 - Granada, 1936)
do Livro: "Poeta em Nova Iorque"
do Livro: "Poeta em Nova Iorque"
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
POR QUE ESCREVO?
Às vezes, quando vejo o que se passa no mundo, pergunto-me para que escrever? Mas, há que trabalhar, trabalhar. E ajudar o que mereça. Trabalhar como forma de protesto. Porque o impulso de um pessoa seria gritar todos os dias ao despertar num mundo cheio de injustiças e misérias de toda ordem: protesto! protesto! protesto!Federico García Lorca (Granada 5 de junho de 1898- Granada 1936)
(Do livro: Por que escrevo? Vários Autores, Novera, São Paulo, 2006)
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
GRUPO CERO NA RADIO PAMPA

Hoje (como em todas as segundas e quartas quartas-feiras do mês)
estaremos fazendo uma conversa sobre POESIA E PSICANÁLISE, conversa permeada por nosso querido Altair Venzon, apresentador do Programa: Tribuna Popular, na Radio Pampa, às 24h. (Ou se quiserem às 00 de quinta). A psicanalista Lúcia Bins Ely, do Grupo Cero, estará das 24h às 1h30min, falando sobre a relação da fala e a interpretação dos sonhos para a psicanálise, além de responder às perguntas de ouvintes que podem interagir ao vivo por telefone. Bate-papo intermediado também por leitura de poemas e algo de música.
CARTA DE AMOR (de Miguel Menassa)
QUERIDA:
Dizer o que me parece das situações é o que mais me cura:
Altos cumes me esperam, mas eu não subirei. Esperarei que os altos cumes sejam desgastados pelo tempo.
Quando tudo seja um nível do mar desgarrador, falaremos, mas não para nos dizermos grandes coisas senão, simplesmente, conversar com tempo, onipresente nivelador de cumes e planicies.
(Indio Gris.)
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terça-feira, 14 de junho de 2011
CONVITE: PALESTRA - FALAR EM PSICANÁLISE
Convidamos todos os amigos do Grupo Cero Verso B para participarem - escutando e falando - da Palestra - FALAR EM PSICANÁLISE - que o Grupo Cero Brasil Psicanálise e Poesia estará promovendo nesta quarta-feira às 19h30:
segunda-feira, 30 de maio de 2011
POR QUE ESCREVO?
Eu tive desde a infancia varias vocações que me chamavam ardentemente. Umas das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a propria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a lingua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo viver e escrever.
CLARICE LISPECTOR (Ucrania- 1920, Rio de Janeiro, 1977)
(do livro: Por que escrevo? Vários Autores, Novera, São Paulo, 2006)
Acrescentamos a seguir a dedicatoria deste livro:
CLARICE LISPECTOR (Ucrania- 1920, Rio de Janeiro, 1977)
(do livro: Por que escrevo? Vários Autores, Novera, São Paulo, 2006)
Acrescentamos a seguir a dedicatoria deste livro:
À Clarice Lispector.
Estadedicatoria, além de cumprir um ritual,
quer se consubstanciar numa lembrança autêntica
e num agradecimento póstumo à autora que
mais encarnou o ato de escrever como uma
atividade profunda e reflexiva sobre a vida.
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quarta-feira, 27 de abril de 2011
GRUPO CERO NA RADIO PAMPA
Hoje, a partir da meia-noite na Rádio Pampa AM (970kHz),
no Programa Tribuna Popular com o apresentador:
Altayr Venzon, estaremos conversando sobre psicanálise e poesia.
no Programa Tribuna Popular com o apresentador:
Altayr Venzon, estaremos conversando sobre psicanálise e poesia.
Como tanto a psicanálise como a poesia fazem uma leitura diferente da realidade. O modo ingenuo de pensar, o modo ingenuo de ler, é o modo que temos que suspender para poder entrar numa novidade que vai subverter no mínimo o nosso modo de pensar.
Com Lúcia Bins Ely (psicanalista e poeta do Grupo Cero)
"Em nenhum outro lugar [a não ser na poesia] - diria Freud, eu não me animo a dizê-lo, estou dizendo por ele - em nenhum outro lugar que na poesia, aquela poesia produzida por aquele suposto método que ainda não sabemos qual é, mas é o método da poesia como instrumento de conheciemnto, seria o único espaço, o único tempo em que o psicanalista encontraria o que já se produz em sua prática." (do livro: Freud e Lacan - Falados - 1, de Miguel Oscar Menassa)
Tu podes interagir ao vivo ligando para a rádio!
E/ou na internet: www.radiopampa.com.br
sábado, 23 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
Vivem em nós inúmeros
Vivem em nós inúmeros;Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
Odes de Ricardo Reis no livro: OBRA POÉTICA, Editora Nova Aguiar.
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terça-feira, 19 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
PALAVRAS DE PÓRTICO
NAVEGADORES ANTIGOS tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessario; o que é necessario é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essencia anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a patria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
no livro: OBRA POÉTICA, Editora Nova Aguiar.
NAVEGADORES ANTIGOS tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessario; o que é necessario é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essencia anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a patria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
no livro: OBRA POÉTICA, Editora Nova Aguiar.
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
AFORISMAS
![]() |
| Delirio de Amor (Miguel Oscar Menassa) |
"Não se pode revolucionar nada sem escritura, nem sequer o amor."
"Minha escritura, cada dia que passa, é mais que eu."
"Escrever, também contra mim mesmo."
Miguel Oscar Menassa (Buenos Aires, 1940)
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segunda-feira, 11 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
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sexta-feira, 8 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
Soneto Sonhado*
Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.
O que n'alma guardei de muita antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.
O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! Não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longos da distância?...
Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção... Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
*Como se depreende do título, foi este soneto composto pelo autor em estado de sono.
Ao despertar só se lembrava das palavras que vão aqui em grifo; das outras retinha apenas o sentido geral, de sorte que teve de completá-lo em estado de vigília.
Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.
O que n'alma guardei de muita antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.
O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! Não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longos da distância?...
Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção... Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
*Como se depreende do título, foi este soneto composto pelo autor em estado de sono.
Ao despertar só se lembrava das palavras que vão aqui em grifo; das outras retinha apenas o sentido geral, de sorte que teve de completá-lo em estado de vigília.
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
CLARICE LISPECTOR
Cartas

“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
Cartas

“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
Clarice Lispector nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Chechelnyk, Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim queVocê não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
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domingo, 3 de abril de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
PNEUMOTÓRAX
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: - Diga trinta e três. - Trinta e três... trinta e três... trinta e três... - Respire. - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968) |
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quinta-feira, 31 de março de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
EM SEU LUGAR
Raio de sol entre dois límpidos diamantes
E a lua a se fundir nos trigais obstinados
Uma imóvel mulher tomou lugar na terra
No calor ela se ilumina lentamente
Profundamente como um broto e como um fruto
Nele a noite floresce e o dia amadurece
PAUL ELUARD (França - 1895- 1952)
(tradução: Manuel Bandeira)
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quarta-feira, 30 de março de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
Te amo
Te amo por todas las mujeres que no he conocido.
Te amo por todos los tiempos que no he vivido.
Por el olor del mar inmenso y el olor del pan caliente.
Por la nieve que se funde por las primeras flores.
Por los animales puros que el hombre no persigue.
Te amo por amar.
Te amo por todas las mujeres que no amo.
Quién me refleja sino tú misma me veo tan poco
sin ti no veo más que una planicie desierta.
Entre antes y ahora
están todas estas muertes que he sorteado sobre paja.
No he podido atravesar el muro de mi espejo.
Tuve que aprender la vida como se olvida
palabra por palabra
Te amo por tu sabiduría que no me pertenece.
Te amo contra todo lo que no es más que ilusión.
Por el corazón inmortal que no poseo
crees ser la duda y no eres sino razón.
Eres el sol que me sube a la cabeza
cuando estoy seguro de mí.
PAUL ELUARD
Versión de Luis A. Cano
Te amo por todas las mujeres que no he conocido.
Te amo por todos los tiempos que no he vivido.
Por el olor del mar inmenso y el olor del pan caliente.
Por la nieve que se funde por las primeras flores.
Por los animales puros que el hombre no persigue.
Te amo por amar.
Te amo por todas las mujeres que no amo.
Quién me refleja sino tú misma me veo tan poco
sin ti no veo más que una planicie desierta.
Entre antes y ahora
están todas estas muertes que he sorteado sobre paja.
No he podido atravesar el muro de mi espejo.
Tuve que aprender la vida como se olvida
palabra por palabra
Te amo por tu sabiduría que no me pertenece.
Te amo contra todo lo que no es más que ilusión.
Por el corazón inmortal que no poseo
crees ser la duda y no eres sino razón.
Eres el sol que me sube a la cabeza
cuando estoy seguro de mí.
PAUL ELUARD
Versión de Luis A. Cano
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terça-feira, 29 de março de 2011
POESIA MUSICAL BRASILEIRA
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
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domingo, 13 de março de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
CADÁVER ESQUISITO
I
No dia que não existe, poetas dispensam bananas
Estoy abierta, sorda, cuidado con mis oidos
Um baú de palavras para pescar
Estou entre amantes da poesia e não sei
Caiu um poema na pia da cozinha
A paixão por escrever me faz dizer: pertenezco
As flores não estavam murchas ao entardecer
II
Mantém aberta a roda viva
Embarcações carregam amores para outros mares
os pássaros e as palavras estão voando por aqui
Estoy con una crise de identidad, no sei se
sou palabra o palavra.
Caiu em um buraco entre Argentina e Brasil,
las palabras son más lindas con otros
es el fin, todas las palabras
estan desnudas.
Cadáver Esquisito produzido no encontro de trabalho da escritura do Grupo de Poeisa do Grupo Cero Brasil, coordenado por Marcela Villavella (29/jan/2011).
Obs.: Cadáver Esquisito é um exercicio que os Surrealistas praticavam (e o Grupo Cero também pratica já que temos os Surrealistas como antecedentes) em que cada integrante do grupo escreve uma frase, ou verso, sem ler o que o outro escreveu, (passando a folha para que cada um escreva algo aí, dobrada sempre para que não se leia o já escrito) e, ao final se desdobra as dobras e se lê o escrito grupal.
Se chama assim por ter sido Cadáver Esquisito o 1º verso do 1º poema produzido desta maneira.
Quadro de Miguel Oscar Menassa (Versos del Oriente)
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Grupo de Poesia Cero
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
LENDO OS GRANDES POETAS
A violeta é introvertida
e sua introspecção é profunda.
Dizem que se esconde por modestia. Não é assim.
Se esconde para poder captar o proprio segredo.
-
-
Seu quase não-perfume
é gloria sufocada
mas exige da gente que a busque.
Não grita nunca seu perfume.
A violeta diz levezas que não se podem dizer.
Clarice Lispector (1920 -Ucrania/ 1977- Rio de Janeiro)
e sua introspecção é profunda.
Dizem que se esconde por modestia. Não é assim.
Se esconde para poder captar o proprio segredo.
-
-
Seu quase não-perfume
é gloria sufocada
mas exige da gente que a busque.
Não grita nunca seu perfume.
A violeta diz levezas que não se podem dizer.
Clarice Lispector (1920 -Ucrania/ 1977- Rio de Janeiro)
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
FESTIVAL MUNDIAL POESIA SEM FIM
![]() |
| Lúcia Bins Ely e Barbara Corsetti |
![]() |
| Barreto |
![]() |
| Maria Cristina Macedo + reciclador de lixo curtindo a poesia |
![]() |
| Caoan Goulart e Leandro Oliveira |
![]() |
| Anelore Schumann |
Aconteceu em Porto Alegre um encontro de poetas
para a leitura de poemas ao ar livre,
inscrito no FESTIVAL MUNDIAL POESÍA SIN FIN,
com o nome
FESTIVAL POESIA SEM FIM
- de Cuba para o mundo -
O INFINITO NÃO É
IGUALMENTE INFINITO
EM TODAS AS PARTES
A poesia esteve presente no Parque Farroupilha e os passantes se aprochegavam para curtir a poesia universal.
Muitos poetas portoalegrenses se fizeram presentes e leram poemas seus e de grandes poetas.
Agradecemos à poeta Marcela Villavella que também esteve presente (embora estivesse em Buenos Aires)
nesta Festa da Poesia.
Foi tudo muito belo.
A realização foi do GRUPO CERO - psicanálise e poesia - com o apoio do Instituto Machado de Assis.
Música de Caoan Goulart - no clarinete - e Leandro Oliveira - ao violão.
Fotografias: Leonora Waihrich.
Agradecemos a todos,
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
FESTIVAL POESIA SEM FIM em Porto Alegre
“A FIGUEIRA ERA O LUGAR DA SOMBRA.
FAZÍAMOS A VIDA, DIZENDO-NOS QUE ÉRAMOS FELIZES
METADE DO TEMPO SENTADOS À SOMBRA DA FIGUEIRA.”
(de Miguel Oscar Menassa)
Num sábado de sol, em torno a uma enorme e centenária figueira, no dia 18 de dezembro de 2010, como parte do FESTIVAL POESIA SEM FIM, o GRUPO CERO BRASIL e o INSTITUTO RECRIAR-CASA AMARELA, que desenvolvem o projeto POETAS DO FUTURO, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul (Brasil), fizeram uma roda de poesia em homenagem ao poeta MIGUEL OSCAR MENASSA.
O “Poetas do Futuro” reúne crianças e adolescentes em torno da leitura e da escritura de poesia. Todos os seus integrantes vivem num lugar chamado Casa Amarela, que os abriga e lhes oferece melhores condições de vida, “para que en el mundo un niño se haga hombre”.
A roda começou como naquele poema do Lorca: às cinco horas da tarde.
O primeiro poema lido foi do livro YO PECADOR, do POETA homenageado.
EU PECADOR III
Amava as andorinhas.
porque aprendi delas a voltar no verão.
No verão amava nas areias
a marca de teus pés.
Odiar
odiava somente o odor dos mortos.
Uma tarde mataram meu primo pelas costas
“Mão de ferro” o chamavam
Miguel, Miguel, meu bem amado e doce camarada.
Montavas a cavalo como o “Vaqueiro Solitário”
único e elegante
nas terríveis guerras do verão
me falavas de teu corpo
de teu corpo desnudo entre os cães
os cães lhe ladram à roupa, me dizias.
Desnudo um é mais um cão.
Deixar a casa do avô.
Esquecer do pátio e da figueira
não recordar jamais o gosto da menta
foi um golpe baixo da vida.
E vieram depois silenciosas mulheres
a violentar em minha lembrança o seu nome.
Veio depois tua morte traiçoeira.
Me contaram de tua cara extraviada de surpresa
porque esperar
- menos a morte –
havíamos esperado juntos qualquer coisa.
Logo entraram na roda alguns textos dos “Poetas do Futuro” (crianças e adolescentes entre 12 e 20 anos):
SEGREDO MORTO
Qual será nosso maior segredo?
Será aquele de que tenho medo?
Ou aquele do qual me arrependo?
Ele é um segredo íntimo,
Que não divido nem com meus primos.
Talvez esse segredo seja um mito
Do qual eu quero falar aos gritos
Escondo-o em meu corpo
Tento não manifestar no meu rosto
Mas ele ficará comigo até o meu último sopro
E assim será um segredo morto.
de Rafael Passos
SOMBRAS NA RUA
Uma figueira no meio da rua
abaixo de uma lua,
uma rua e uma lua
e a figueira entre elas.
Na rua iluminada
os olhos de uma pessoa
refletem a lua
e os seus pés pisam a rua.
E a figueira?
Continua ali, iluminada pela lua
a fazer sombra na pessoa
que pisa a rua.
de Vinicius Guterres
CÃO FEROZ
Em uma casa diferente,
ao olhar para a frente, a Donna da casa sai
de sua residência, e nota que há uma coisa errada
com seu mascote de estimação,
seu cão feroz e assustador acaba de matar um bebê:
o de sua vizinha favorita, a madame Madricur.
de Thiago da Silva
A MÃO FECHADA DO OVO
A mão que faz a terra
quebra o ovo
o ovo é roubado
o cara que o rouba
frita um ovo
E COME!
“comida é água”.
de César Augusto Martins
BICICLETA ABANDONADA
Um dia eu vi uma bicicleta, sozinha, quase abandonada.
Mas ela estava para mim. Eu a peguei e saí com ela.
Só que não demorou muito e o
dono me encontrou e disse:
me dá aqui, se não eu vou queimar você em dois.
Tá bom, você venceu. Pegue e fique com deus.
de Fabiano Daniel Pereira
BOXEI A LUA
Era um guri que sonhava
viajar para a lua.
Então viajou para vários países
e vários estados e o mundo todo,
por que queria encontrar um FOGUETE.
Era um guri que só apanhava
Mas um dia ele disse:
Vou descarregar minha raiva
num ET, de repente ele é
mais fraco do que eu.
Então o guri lembrou que nos EUA
têm um FOGUETE e lá é um país rico.
Vamos lá!
Lua, aí vamos nós!
O ET vai apanhar tanto!!!!!
Mas quando o guri chegou lá não
havia ET nenhum.
E ele teve que boxear a lua.
de Israel Cunha
JOSÉ
José onde você está?
- A festa acabou.
E agora onde você está?
- Estou na rua. Vou embora dormir
numa noite bela e escura.
Mas você dorme José?
- Passo a noite olhando as estrelas
e a lua, mas não há estrelas e lua.
E agora o que irá fazer?
- Embora queira não posso
brincar com os cães, não há nenhum cão.
O que fará José?
- Cem lua e cem cães.
de NÍcolas Gabriel Martins
SOMBRA
Onde eu vou, ela vai atrás.
Eu vou sair, ela vai atrás.
Eu vou ao hospital, ela está lá.
Eu vou para escola, ela está lá.
Qual é o nome dela?
Eu não sei dizer o nome dela.
Ainda não deu tempo para ela largar do meu pé.
DOM a SOMBRA.
de Douglas Moreira
PALAVRAS
Escrevo uma palavra
BIGODE
Depois dela escrevo a palavra
LOIRO
e já tenho um BIGODE LOIRO
de Fabiano Escouto (Niño)
CORAÇÃO
Dizem que o coração
é vermelho,
mas o meu é de ouro.
Os dois são lindos e grandes
e rachados e lançados
por morte
de uma melodia.
Salvados de dentro e
desabados
e pesados.
O seu coração salvo
buscou outro
coração de ouro.
de Maicon de Paula
A RODA terminou com música popular brasileira. Caoan da Costa Goulart e Matias Behrends Pinto (violão e cavaquinho) deram cordas à poesia.
O projeto Poetas do Futuro, por sua coordenação (Grupo Cero Brasil, poeta Eliane Marques), bem como o Instituto Recriar – Casa Amarela (por sua Presidência e coordenação, Gilmar Dal’Osto Rossa e Maria Cristina Gonçalves da Costa), agradecem ao FESTIVAL POESIA SEM FIM, por que a única maneira de viver é viver acompanhado.
Foto: Iria Boufleur
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
LENDO OS GRANDES POETAS
POESIAS INÉDITAS
5
A partir de certo instante
só resta o tempo do abismo
com rosas ou sem rosas,
com molhes ou sem eles,
com outros rostos ou sem ninguém.
Não importa para onde miremos
ou falemos ou calemos.
O tempo do abismo tingirá
cada momento e cada coisa,
como um obliquo colorante
que não exclui nem sequer a ausencia.
O tempo do abismo
parece mais firme e seguro
que a não confirmada eternidade.
ROBERTO JUARROZ (Buenos Aires,1925 - 1995)
* Quadro: Las Alas del Tiempo de Miguel Oscar Menassa
5
A partir de certo instante
só resta o tempo do abismo
com rosas ou sem rosas,
com molhes ou sem eles,
com outros rostos ou sem ninguém.
Não importa para onde miremos
ou falemos ou calemos.
O tempo do abismo tingirá
cada momento e cada coisa,
como um obliquo colorante
que não exclui nem sequer a ausencia.
O tempo do abismo
parece mais firme e seguro
que a não confirmada eternidade.
ROBERTO JUARROZ (Buenos Aires,1925 - 1995)
* Quadro: Las Alas del Tiempo de Miguel Oscar Menassa
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
POESIA SAINDO DO FORNO CERO
CUESTA ABAJO
"Si arrastré por este mundo
la verguenza de haber sido
y el dolor de ya no ser."
Gardel e Le Pera, 1934
Nos meus sonhos de criança,
Deputado ou senador,
Foi-se logo a esperança,
Restou uma profunda dor.
A vergonha do fracasso,
De um passado sem retorno,
No presente que faço?
Se só fiquei um estorvo.
São meses, anos de angustia,
Lembrando o que teria sido
E viver sem nostalgia
E agora no fim da vida,
Velho e amadurecido,
Resta a esperança perdida.
Altayr Venzon
* Quadro: Fue Buenos Aires, Miguel Menassa
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
BLÁ-BLÁ-BLÁ: OS POETAS DO FUTURO com a poeta BARBARA CORSETTI
ACUPUNTURA
minha cor é local
faminta e no meio-fio
curto farpado circuito
o cartão postal de nossa derrota.
marquei hora com o tempo,
o sol move seus bispos e bilhetes
feito algo que acumula: acupuntura.
o mapa que me guia foi arrancado
minhas cicatrizes
cobram o condominio.
girando em si
o mundo é um coquetel molotov
feito agulha
copulando pele.
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Porto Poesia 4
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
BLÁ-BLÁ-BLÁ: OS POETAS DO FUTURO com a poeta BARBARA CORSETTI
SEGREDO MORTO
Qual será nosso maior segredo?
Será aquele de que tenho medo?
Ou aquele do qual me arrependo?
Ele é um segredo íntimo,
Que não divido nem com meus primos.
Talvez esse segredo seja um mito
Do qual eu quero falar aos gritos
Escondo-o em meu corpo
Tento não manifestar no meu rosto
Mas ele ficará comigo até o meu último sopro
E assim será um segredo morto.
Rafael
Rafael faz parte do Grupo de Poesia da Casa Amarela Zero
(coordenado por Eliane Marques) que apresentou seus escritos
na atividade do Porto Poesia 4 chamada:
"Blá-blá-blá: os POETAS DO FUTURO com a Poeta Barbara Corsetti".
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domingo, 5 de dezembro de 2010
LENDO OS GRANDES POETAS
Roberto Juarroz
Por cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e da companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
Às chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não estar
Porém também para todas as posições intermediarias
Um amor como abrir os olhos
Roberto Juarroz (Buenos Aires - 1925; 1995)
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Poema 55, quinta poesia vertical
Um amor mais além do amorPor cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e da companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
Às chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não estar
Porém também para todas as posições intermediarias
Um amor como abrir os olhos
Roberto Juarroz (Buenos Aires - 1925; 1995)
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
LENDO OS GRANDES POETAS
GERMÁN PARDO GARCÍA
CANTO À FORÇA SINDICAL
(continuação)
CANTO À FORÇA SINDICAL
(continuação)
IV
ME induzem a penetrar nas oficinas em que obreiros tipógrafos
colocam grises sílabas em pranchas e molduras.
Aqui a força sindical logra crescente fragor de oceano
que move sem cessar as tubulares rotativas.
As ondas deste mar tipógrafo são páginas
de branquíssimo papel que inunda as metrópoles
e se retira semelhando às marés,
para volver a afogar as casas, as ruas, os estadios,
com a velocidade de suas cronologias.
Que preludio tão sublime o dos linotipos e das prensas!
Que ritmo tão dinâmico o das engraxadas engrenagens!
Quanta beleza nas ustorias lâmpadas e espelhos de aluminio
que distribuem equações de calor e seivas de súlfur!
Aqui as árvores são discos enormes rateados
e laboráveis folhas sua balsâmica madeira.
Se ouve correr os rios em cujas margens cheias de tórridos pássaros
crescem as plantas de onde flui a substantiva celulosa.
Todo diluvio aqui se escuta.
Todo furacão aqui distende-se.
O golpe das marretas que partem hexágonos graníticos,
repercute sob o aço destas abóbadas donde os relâmpagos tem menor velocidade que a noticia
Aqui a ordenadora força sindical é branca república
dirigida pelas fontes sinfônicas do homem.
E quando as janelas desta fábrica impressora se abrem ao sol e ao vento,
fogem os imortais livros como martins-pescadores
ou espumas separando-se dos nitrados promontorios.
Os livros imortais
que divulgam a virilidade dos proclamas e dos cantos de Píndaro.
(continuará)
ME induzem a penetrar nas oficinas em que obreiros tipógrafos
colocam grises sílabas em pranchas e molduras.
Aqui a força sindical logra crescente fragor de oceano
que move sem cessar as tubulares rotativas.
As ondas deste mar tipógrafo são páginas
de branquíssimo papel que inunda as metrópoles
e se retira semelhando às marés,
para volver a afogar as casas, as ruas, os estadios,
com a velocidade de suas cronologias.
Que preludio tão sublime o dos linotipos e das prensas!
Que ritmo tão dinâmico o das engraxadas engrenagens!
Quanta beleza nas ustorias lâmpadas e espelhos de aluminio
que distribuem equações de calor e seivas de súlfur!
Aqui as árvores são discos enormes rateados
e laboráveis folhas sua balsâmica madeira.
Se ouve correr os rios em cujas margens cheias de tórridos pássaros
crescem as plantas de onde flui a substantiva celulosa.
Todo diluvio aqui se escuta.
Todo furacão aqui distende-se.
O golpe das marretas que partem hexágonos graníticos,
repercute sob o aço destas abóbadas donde os relâmpagos tem menor velocidade que a noticia
Aqui a ordenadora força sindical é branca república
dirigida pelas fontes sinfônicas do homem.
E quando as janelas desta fábrica impressora se abrem ao sol e ao vento,
fogem os imortais livros como martins-pescadores
ou espumas separando-se dos nitrados promontorios.
Os livros imortais
que divulgam a virilidade dos proclamas e dos cantos de Píndaro.
(continuará)
Germán Pardo García (Colombia - 1902, México - 1991)
*Quadro de Miguel Oscar Menassa (Catarata Marina)
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
LENDO OS GRANDES POETAS
GERMÁN PARDO GARCÍA
CANTO À FORÇA SINDICAL
(continuação)
III
ESTES sensíveis bosques sociais dotados de justíssimas linguas
urgem à capacidade de meu coração álgido e só
para que entenda a amargura do salario miserável;
a aridez dos mineiros que tiram dos cárcamos
a escravidão dos petreos combustíveis;
a dessecação dos arroios pulmonares
pelo silicio e pela cal das pedreiras,
e a agonia dos lívidos punhos derrotados
pela inercia e pelos espectros
que atam a suas cinturas emblema falaz de campeões.
(Continuará)
CANTO À FORÇA SINDICAL
(continuação)
III
ESTES sensíveis bosques sociais dotados de justíssimas linguas
urgem à capacidade de meu coração álgido e só
para que entenda a amargura do salario miserável;
a aridez dos mineiros que tiram dos cárcamos
a escravidão dos petreos combustíveis;
a dessecação dos arroios pulmonares
pelo silicio e pela cal das pedreiras,
e a agonia dos lívidos punhos derrotados
pela inercia e pelos espectros
que atam a suas cinturas emblema falaz de campeões.
(Continuará)
Germán Pardo García (Colombia - 1902, México - 1991)
* Quadro de Miguel Oscar Menassa
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