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segunda-feira, 12 de março de 2012

verso b

Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.



Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS


Preparação para a morte
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
 (do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

Soneto Sonhado*

Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

O que n'alma guardei de muita antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.

O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! Não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longos da distância?...

Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção... Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.

Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
 (do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)

*Como se depreende do título, foi este soneto composto pelo autor em estado de sono.
Ao despertar só se lembrava das palavras que vão aqui em grifo; das outras retinha apenas o sentido geral, de sorte que teve de completá-lo em estado de vigília.

domingo, 3 de abril de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

PNEUMOTÓRAX



Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)

quinta-feira, 31 de março de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS



EM SEU LUGAR

Raio de sol entre dois límpidos diamantes
E a lua a se fundir nos trigais obstinados
Uma imóvel mulher tomou lugar na terra
No calor ela se ilumina lentamente
Profundamente como um broto e como um fruto

Nele a noite floresce e o dia amadurece

PAUL ELUARD (França - 1895- 1952)
(tradução: Manuel Bandeira)