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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO

(Culturamix)
ELEFANTES DA SOLIDÃO

1.

quando das feridas
se abrir a noite
saberá o grito

revém do arroio
rever seus pedaços
de nome, unhas e, bem
ao lado da vinha, marfins

essa marcha é
a fome que o peso
do corpo suporta

uvas, nunca consolo
aos elefantes da solidão

2.

na manada, tudo
tem patas cicatrizes
ossos, tem,

na garganta
o ruído da morte

oh corpo que arrasta
a poeira desse arroio,
o quê se mastiga só?

3.

a vinha,
grito que se mete
na presa das manhãs

a uva,
corcova de espinhos

raiz de navalha
corte de semente
tromba ou arroio

a menor das facas,
ainda assim, cabe na
dinastia desse homem

Eliane Marques (Integrante do Grupo de Poesia Cero)
No livro: Casa do Poeta Rio-Grandense 47 anos

quarta-feira, 6 de julho de 2011

POESIA SAINDO DO FORNO CERO



RAIZ DO GRITO


1.

O prato de sal
mantém esguio
e com flores na boca
o corpo que leva a navalha
do homem  que  vai

os pés sob o berço das facas
e toda a nau que ao cravo do corpo
importa, sua casa de mortos na beira da rua,
clarinetes emaranhados em ovelhinhas de lã   

revém do arroio a navalha que empurra
vem rever a revelha de pão e sua capa
com tolices nos bolsos:
armazéns onde se vendem unhas
domingos de guarda-chuva, mesa para seis netos, e,
bem ao lado da vinha,
dois caixões
cujos braços foram atados

as uvas nunca foram consolo do corpo que
tem por costume a solidão da navalha
e vai negro levar a agua do ferrador 


(continuará)


Eliane Marques


Publicou: Relicário (2009), Arado de Palavras (vários autores) e nas Revistas Água Viva

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

BLÁ-BLÁ-BLÁ: OS POETAS DO FUTURO com a poeta BARBARA CORSETTI



SEGREDO MORTO

Qual será nosso maior segredo?
Será aquele de que tenho medo?
Ou aquele do qual me arrependo?
Ele é um segredo íntimo,
Que não divido nem com meus primos.
Talvez esse segredo seja um mito
Do qual eu quero falar aos gritos
Escondo-o em meu corpo
Tento não manifestar no meu rosto
Mas ele ficará comigo até o meu último sopro
E assim será um segredo morto.

Rafael
Rafael faz parte do Grupo de Poesia da Casa Amarela Zero
(coordenado por Eliane Marques) que apresentou seus escritos
na atividade do Porto Poesia 4 chamada:
"Blá-blá-blá: os POETAS DO FUTURO com a Poeta Barbara Corsetti".

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

GRUPO CERO NA RADIO PAMPA

Hoje, a partir da meia-noite na Rádio Pampa AM (970kHz),          
no Programa Tribuna Popular com o apresentador: 
Altayr Venzon, estaremos conversando sobre psicanálise e poesia. 

Estaremos trazendo alguns fragmentos poéticos de textos de
Mario Vargas Llosa, premio Nobel de Literatura 2010.
A poesia dos grandes poetas nos tocará como só
a poesia faz, de maneira surpreendende e diferente
para cada um.

Com Lúcia Bins Ely (psicanalista e poeta do Grupo Cero)
e Eliane Marques (poeta do Grupo Cero e mestranda em direito e psicanálise).

"A escritura é o menos nosso que temos, é ela inteira, toda para o futuro."
Miguel Oscar Menassa

Tu podes interagir ao vivo ligando para a rádio!

E/ou na internet: www.radiopampa.com.br

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Apresentação do livro TE BUSCA Y TE NOMBRA de Marcela Villavella neste 05 de outubro, na Livraria Cultura em Porto Alegre



Eliane Marques e Marcela Villavella


Eliane Marques, Marcela Villavella e Barbara Corsetti

Lúcia Bins Ely

Marcela Villavella


Caoan Goulart (clarinete) e Leandro Oliveira (violão)


Gurizada do Grupo de Poesia da Casa Amarela Zero
Fotos: Iria Boufleur


A POETA QUE LEVA UM PÁSSARO

 ANINHADO EM SUAS MÃOS.


Os poetas, em geral, têm apenas um problema.
E atenção, trata-se de um problema sério.
Um problema sério com a palavra amor:
Eles se queixam de forma constante:
ou amam demais,
ou amam de menos,
nunca na medida certa.
Mas nessas duas falas, atenção (ojo, como dizem os espanhóis)! Eles sempre fingem, sem nenhum tipo de vergonha, não ficam nem de bochechas coradas, ou com voz trêmula, ou com os olhos piscando. Sua posição é de se negarem a nos fornecer qualquer outro sinal, indicativo ou pista por onde possamos pegá-los em flagrante, com o dedo nessa invenção.
Se um alfaiate, bem alto, de terno preto e metro de cor amarela pudesse medir a palavra amor nos versos de um poeta e ainda que considerasse também o anverso, escreveria muito feliz no seu velho caderno de anotações:
amor dois pontos = palavra certa
observação - nada sobra nada falta
E para quê um alfaiate tiraria as medidas da palavra amor?
Talvez para vesti-lo com um projeto futuro de esperança, ou para vesti-lo com palavras vindouras, aquelas que ainda não foram pronunciadas, por que o amor é isso, diz a poeta Marcela Villavella, o amor é um nome que não se pode recordar, é um nome que virá, talvez, por isso para ela, o amor não seja certa palavra, mas a palavra certa em sua medida exata.  E nisso entre as  palavras que são de foca e de esponja marinha, sua poesia já trilha um caminho líquido, um caminho diferente.
E se acaso encontramos esse amor como um vagabundo ébrio na madrugada, como um desses humanos que vão por aí tropeçando entre os valos, personagens dos quais também nos fala o poeta brasileiro Cruz e Souza, se o encontramos numa dessas ruas ou num desses tetos onde bate o vento, ou dançando esse pensamento triste que é o tango, ele já será outro a se nomear.
Então a poeta de TE  BUSCA Y TE NOMBRA se põe propositadamente debaixo da chuva e espera, com as mãos abertas em forma de concha, que um pássaro muito, muito pequeno pouse nelas e ali faça seu ninho. Talvez esse pássaro seja um beija-flor (um colibri), ou outro, não sabemos, ela não nos entrega esse segredo. Mas pela maleabilidade de suas palavras supomos que seja um beija-flor abelha, esse bichinho delicado, que voa para frente e para trás e faz bruscas piruetas para se ver livre de algum perigo.
               Mas se não sabemos exatamente de que pássaro se trata,  sabemos do efeito do seu vôo nas mãos da poeta: ele lhe impõe que fale muito baixinho para não assustá-lo, que vá pelas ruas lentamente, passo a passo, para que ele não caia. E ainda, de vez em quando, ele impõe à poeta que colha um pouco do néctar de alguma rosa para o  alimentar.
Ambos vão assim, sob a chuva e com o sol às costas. Vão  mansamente falando de coisas que talvez ele - o pássaro - não quisesse nem saber – para que me falas desses assuntos, diria ele, que sei eu dos medos ou dos dedos marcados na minha cara ou dos 10 mandamentos que não se cumprem ou do hospital e desse morto aí na calçada cujo jornal no rosto lhe anuncia a morte.
A poeta pouco se importa com o blá blá blá do pássaro. Ela sabe que seu coração está em outro centro, seu coração late no centro da linguagem. E desse lugar ela escreve ao lado do amor outras palavras certas: vida e morte. Então, não são quaisquer palavras de que fala a poeta. E se falasse de outras palavras, seriam erradas? Não, por que o poeta sempre fala das palavras certas e não de certas palavras. Bem, talvez essa questão nem seja importante e talvez o certo e o errado sejam irrelevantes para essa que baixinho fala ao pássaro. Ela mesma diz: a verdade, às vezes, é bem pouco interessante. 
O problema é do pássaro, é ele quem exige essas palavras certas. Entre 100 papéis, 500 palavras, 4000 maneiras de dizê-las, 12000 tentativas de acalmar o clima e 1 milhão de gotas caindo na esquina, o pássaro exige essas palavras – vida e morte.
E por que ele faz esse pedido?
Simplesmente por que há um pranto dividido em dois: há uma dor de nascer e há uma dor de morrer – É um golpe de sorte voltar a amanhecer.  O começo é de água e o final também o é, diz a poeta. Sim, é um golpe de sorte voltar a amanhecer.  
Nesse caminho entre dois mares e com seu beija-flor vai com segurança, como se houvesse amado alguém (E será que não amou, será que não caminha entre gotas desse amor, será que ao cumprir o desejo desse a quem ela decidiu dar amor “a manos llenas” não ama?).
E cada vez a poeta se distancia mais desse mundo onde quase tudo é de plástico: ela se distancia do patinho inflável, do controle remoto da televisão, de um colarzinho muito bonito que algumas vezes a enfeita, do pote de queijo que utiliza no café da manhã, ela se distancia porque tudo é de plástico, menos esse pranto, esse mesmo que se divide em dois.  
Mas para o pássaro, não são de plástico as palavras da  poeta, por que são elas  que o retiram de um abandono quiçá,  sem piedade.
A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul. Poeta e pássaro se encontram com Rimbaud para juntos porem em xeque a linguagem -  e o escrever não é vaidade ou poder é apenas poema.
Sim, mas o que importa um poema se não há mercado aberto para nenhuma mãe, nem bar para nenhum irmão, se não há nenhum filho bastardo para encher o berço, se não há nem pai legítimo que ponha comida na mesa, que importa se há colheres de sopa para nenhum comensal?
Que importa se existem agulhas cravadas em nossos sonhos e é penoso dizer “te amo” com uma voz estrangeira, que importa se a dor da guerra segue matando os filhos da guerra e fere, mesmo que à distancia, a dor de nascer entre os mortos?
A poeta diz tudo isso como se se tratasse de outra coisa, como se se tratasse de se ir ao bosque se querendo ir ao mar, e tudo  com uma delicadeza de vôo de beija-flor.
 Mas, assim como Eliot, ela anda por uma terra desolada, mas, sabemos, não vai sozinha. Para Eliot “Abril é o mais cruel dos meses, germinando lilases da terra morta, misturando memória e desejo, avivando agônicas raízes com a chuva da primavera”. Para Marcela Villavella nesta vida atada a algumas cartas onde o destino se sabe jogar e se perde, nesta tendência a viver demais, a beber demais de todos os copos de cicuta do mundo, nesse naipe que nos falta há um “Ás” de espada que nos olha, mas não nos mata. 
E com esse verso ela se autoriza a seguir por ruas de paredes herméticas e janelas intermináveis por onde também vão milhares de homens de sapatos recém lustrados, homens que levam um jornal debaixo dos braços e um livro no bolso, ruas por onde vão milhares de bonecas russas. E, no meio de tudo isso, não há olhos para ver o cavalinho de madeira feito caquinhos no quarto.
Todavia,  apenas a poeta vai pela chuva e com o pássaro entre as mãos. Estará perdida? Não, não está. Sentou-se numa mesa com sonhos, pesadelos e palavras e, ao seu lado, um menino agita uma bandeira – e, nesse momento, é o pássaro que lhe aponta o poema.
Fracassar se pode sempre, ela diz ao pássaro, e assim existem feridas que ela cuida para que se fechem e outras que mantém abertas para não se esquecer de quem foi. Ao mesmo tempo ela teme que a frase “estou feliz” a persiga por toda a vida como um desígnio não cumprido. Não nos enganemos,  ela é valente e segue e não abandona o pássaro. 
O poeta argentino Juan Gelman um dia disse de Paco Urondo, cuja morte se deu no enfrentando da ditadura Argentina, e a quem a Poeta dedica o poema “El Pajarito”: -corrigia muito seus poemas, soube porém que o único modo que o poeta tem de corrigir sua obra é ” corrigindo-se a si mesmo”, se reescrevendo, quer dizer, buscando os caminhos que vão do mistério da língua ao mistério da gente.
Bem, é isso que faz Marcela Villavella no livro “Te busca y te nombra”, entre as palavras já está entre as pessoas e as  ama com a verdade nas mãos.
Agora não há mais chuva, as nuvens sobem demasiado alto, demasiado longe, demasiado céu. Não há mais desculpas para aninhar o pássaro, mas a Poeta se recusa a deixá-lo, pois na busca que empreendeu    se encontrou nesse longo vôo, nesse longo bater de asas.      
A ele, ao pássaro, Marcela Villavella deve o poema. E ele, o pássaro, sabe da dívida impagável que tem com ela, por isso  é, ele mesmo, um verso.
Y todo termina con una esperanza, con una dilación
      –"ha estado bien"–, o en un bostezo, o en otro
      lugar donde es menester el coraje ( Paco Urondo) a coragem de, como poeta,  levar um pássaro entre as mãos.
                          Assim, se o tango é uma tristeza que se dança, a poesia de “Te busca e te nombra”  é uma dor que se escreve.

                          Obrigada, Marcela, por tuas mãos aninharem esse beija-flor.


Eliane Marques

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

APRESENTAÇÃO do livro RELICARIO

Eliane Marques

Editorial Grupo Cero

fotos: Iria Boufleur

Hoje é um dia especial para o Editorial Grupo Cero Internacional e em especial para o Grupo Cero Brasil, porque depois de mais de 40 anos editando livros em espanhol, hoje apresentamos o terceiro livro publicado no idioma português.


Se abre para todos e neste caso através da poesia, uma possibilidade inédita, que as linguas se articulem como numa torre de Babel construída de palavras que ao serem tocadas pela poesia, não se separam nem se dispersam como na construção da mítica torre, senão que ao contrario, fazem livros.

Um relicario é uma caixa ou estojo onde amorosamente se guardam reliquias ou lembranças, se guarda algo que esteve perto do corpo de alguém especial, cabelos de um ser amado, dentes de leite tirados de um bebê, uma foto antiga que por algum motivo e por ser parte de um corpo se fizeram dignos de veneração.

Em um relicario se guardam coisas que só tem valor sentimental para alguém. Quiçás todo livro de poesia seja um Relicario.

Ao abrir este Relicario construído de poemas, nos damos conta que como tal é um livro misterioso, quiçás como o é todo relicario. Quem vê o conteúdo não chega a apreciar o valor do que há dentro até que saiba algo de sua historia.

Por que se guardaram esses dentes, por que essa mecha de cabelo, a quem pertenciam?… Recém aí, fazendo a reliquia falar começamos a formar parte do misterio.

Relicario é o primeiro poemario individual de Eliane Marques, uma autora cheia de historias para contar, mas essas historias só aparecem em forma de poesia.

A apresentação de um livro de poemas é uma chance de fazer os poemas dizer algo que o poema em si mesmo não tem desejo de dizer.

Um relicario se aprecia de fora para dentro. Tem uma beleza que guarda outra beleza mais subjetiva, ou mais verdadeira, mais íntima que a que é capaz de mostrar-se.



Como dizia antes, quiçás todos os livros de poesia são relicarios, guardam um segredo indecifrável, até que alguém se arrisca e os abre e os lê sem querer entender o que estão dizendo, somente se deixando tocar pela profundidade desse enigma.

Li e reli este livro muitas vezes, e posso assegurar que nele há um segredo guardado.

Comecemos por sua forma exterior:

Um rosto escondido detrás de pétalas, pinceladas de sangue, vida que nos mira.

Em seu interior: palavras. Poemas organizados em 4 capítulos:

Iscas da morte

coisas de bruxaria

andar sem ceu

heranças



Mas insisto, estamos frente a um livro de poesias e para entrar nele, temos que fazê-lo sem sapatos, sem roupa pesada e sem preconceitos… a um livro de poesia há que entrar leve, para que as palavras nos organizem outra realidade, com as leis secretas que nos governam nos sonhos.

A meu entender um dos segredos deste livro é ler de trás para frente, começar pelas heranças que a autora reconhece que são quem habilitam a escritura do Relicario.

Federico García Lorca, Nelson Rodriguez, Oliverio Girondo, Gregory Corso, Allen Ginsberg, Marcel Proust, Miguel Menassa, Borges, Silvia Plath… são os motores que a poeta liga, para escrever.

A escritura de Eliane tem uma bandeira a defender: põe a mirada nas brechas da vida, as perfura, chega decidida a mirar com olhos de menina, que está escondida debaixo de uma mesa desde onde mira absorta como o mundo se desenvolve inexplicável e simples, também para ela.

E o que diz? O que nos diz? Por que entrega seu Relicario para que todos possamos abrir e descobrir suas reliquias?

Estas perguntas me convocam.

Eliane tomou uma decisão. Põe dentro do Relicario seus proprios olhos, para que vejamos junto a ela onde sangra a vida, onde se desnuda a dor, onde se suicida a morte.

Sua intenção não é desentranhar os segredos que escreve, sua intenção é alimentá-los como se fossem animaizinhos, até que cresçam em seu misterio.

Fala pouco do amor, mas sabemos que dentro do relicario há um objeto de amor, quando o nomeia, o amor rivaliza com o natural: O amor para a poeta está nas raízes, na rosa, nas laranjas, nos ramos de alecrim, na fome, nas rugas, no frio, no fogo.

Diz da dor: o sofrimento é sonâmbulo e um sonho dissipa uma dor do corpo. Há nesses versos uma sabedoria: O sonho é outra vida à qual há que se entregar para viver mais.

A morte é uma senhora que passeia no Relicario, ela está nas lágrimas de um pássaro, nos instantes, no dormir, nos beijos, no porão, nos rios, no ar, no sonho, em tudo está a morte, no proprio dormir.

A morte é uma das insistencias da autora, se apresenta em cada poema como o resto natural do amor. Está em todas as coisas e o tempo todo. O único lugar em que a morte não está é nos cemiterios.

Os cemiterios para a autora, são espaços tão falsos como os parques de diversões.

Há uma sabedoria dizia, porque na vida está o amor e a morte.

Este é seu primeiro livro, mas me arrisco a comparar seu Relicario com os contos do narrador mexicano Guillermo Arriaga, que seduz ou repreende à morte para que fale, para que saia dos retratos, quebre o silencio, se pronuncie, perda a máscara e seja viva presença na beira do mundo.

Recomendo-lhes que leiam este livro de poemas, para aceder a uma poesia diferente, para ver a realidade com outros olhos, e sobretudo, por aquilo que disse no começo da apresentação, que num relicario se guardam coisas que somente tem valor sentimental para alguém.

Um relicario é uma caixa ou um estojo onde amorosamente se guardam reliquias ou lembranças, se guardam coisas que estiveram perto do coração, e por ser parte de um corpo se fizeram dignas de veneração.



Quiçás todo livro de poesia seja um Relicario. Gracias



Marcela Villavella



terça-feira, 7 de setembro de 2010

DA APRESENTAÇÃO do livro RELICÁRIO de Eliane Marques

“Mas insisto, estamos frente a um livro de poesias e para entrar nele, temos de fazê-lo sem sapatos, sem roupa pesada e sem preconceitos… em um livro de poesia há que entrar leve, para que as palavras nos organizem outra realidade, com as leis secretas que nos governam nos sonhos.” (Marcela Villavella)





A apresentação ocorreu ontem (06 de setembro) na Livraria Cultura em Porto Alegre.
FOTOS: Iria Boufleur

domingo, 29 de agosto de 2010

POESIA CERO: RELICÁRIO (de Eliane Marques) será apresentado por Marcela Villavella neste 06 de setembro na Livraria Cultura

FEDERICO

quebrado na rua
o irmão
de ferro

pela casa
o fino latido
do pai

a mãe

menino - lençol
embalsamado

esquina
que
a cada vida
sub-trai
aquiles do cal

ELIANE MARQUES (integrante da Escola de Poesia Grupo Cero)




In: RELICÁRIO


Primeiro poemário solo da autora.


Obs.: a autora estará lendo alguns dos poemas do livro nesta Apresentação na Livraria Cultura em Porto Alegre (dia 06 de setembro às 19h)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

POESIA CERO: RELICÁRIO (de Eliane Marques) será apresentado por Marcela Villavella neste 06 de setembro na Livraria Cultura

DOBRO

recolho a morte
das lágrimas de um pássaro
e seus arames
batizam as plumas
do suor

lenço
que
derrota aviões

vem noite

cobre o repouso
com corpos dormidos

na rota fadiga
refoge dos versos
em falsa Sharazad

sê deserto

a vida é um paraquedas
cicuta do varal manso

e sê triste

na tua boca inchada
beijos dobles
caem

ELIANE MARQUES (integrante da Escola de Poesia Grupo Cero)

In: RELICÁRIO
Primeiro poemário solo da autora.
Obs.: a autora estará lendo alguns dos poemas do livro nesta Apresentação na Livraria Cultura em Porto Alegre (dia 06 de setembro às 19h)

domingo, 13 de junho de 2010

POESIA saindo do forno CERO

ATO 2
CENA ÚNICA

A TARDE SEM RELÓGIO
(continuação)


de onde vem a rosa
arrastando-se pelo parque

com sua tiara na mão?



o que é mais triste?

o peso das jóias as

rendas os vidros descalços

ou uma menina que

grita em sua boca ?



acalmem-se:



ela está cega

por uma dor que esquiva

com os pés de prato



sim a conhecemos



desceu de um trem

muito antigo

um trem que parava

nas mesmas e

mesmas e mesmas estações



sempre frias o

frio em todas as estações

sempre escuras o

escuro em todas as estações

todas as estações frias e escuras

frias e escuras

escuras e frias um

frio que não desemboca um

escuro que não desemboca que

não desemboca que não

Eliane Marques
(do livro inédito: A ROSA - uma tragedia quase brasileira)

terça-feira, 8 de junho de 2010

POESIA saindo do forno CERO

ATO 2

CENA ÚNICA

A TARDE SEM RELÓGIO

na tarde que nunca termina a

rosa desconhece damas

meias de seda

vestido de noiva e

vinho do porto



esquece ruínas

em seus modos de

dolores apaga e

expulsa rostos



ontem a rosa

fechou quatro

imensas portas



depois de um

incêndio qualquer

em sua boca



hoje sem rosto a

rosa descansa e

contra as paredes do poço

suas unhas são

vermelhas ausências

Eliane Marques
(do livro inédito: ROSA, uma tragédia quase brasileira.)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

SAINDO DO FORNO


hORÁCIO


Caiu no pátio entre as casas das irmãs. Depois da partida da mãe, continuou ali onde sempre estivera, num velho quarto de madeira bruta, com uma porta de frente sem porta, uma janela lateral cuja mirada enfrentava o lodo que corria feito serpente da casa principal às de fundos, e um guarda-roupa espelhado no qual se guardavam as fantasias dos parentes de antanho. À noite vestia roupas de tule amarelo e sapatos de lantejoulas douradas porque quando alguém morre aos outros não é dado seguir vivendo.

Então, sempre se estava na época de ocultar a morte. Não se tratava de obedecer ao ritmo de uma estação, até se invejava as laranjas que só nasciam no inverno. Para o sepultamento de uma tal palavra toda a estação era primavera. A morte da Negrinha fora ocultada de minha avó, a morte de minha avó fora ocultada de mim e agora a morte dele se ocultava de minha mãe, de modo que cada um, deixando-se enganar pela vida, seguia vivendo.

A Negrinha, minha mãe e ele eram irmãos e a morte, pertencente a todos, se guardava como relíquia numa caixa de madeira fabricada ao longo da ilusão da vida. Às vezes a madeira apodrecia como apodreciam as paredes do quarto e o piso inchado com o acúmulo dos mortos. Mesmo assim ele vestia o tule amarelo e as lantejoulas douradas e seguia entre o lodo das suas asas. Um dia caiu no pátio. Caiu com as mãos seguras numa árvore de laranjas-do-céu que sua mãe cultivara. Nunca fora religioso, o tombo nesse local se deveu a facilidade de carregamento do corpo, pois a árvore ficava próxima à casa da irmã mais velha que saberia suportá-lo. Era uma das mulheres da família que nunca se deixara levar pela mentira da vida, já nascera morta, pouco lhe importava a dos outros. Assim facilitava a burocracia do enterramento fazendo o que havia de ser feito, sem muita lengalenga e falsas despedidas chorosas. Essa mulher substituíra a mãe nos cuidados que o irmão nunca tivera, cuidados que desde cedo foram iguais aos de um enterramento. Dava-lhe banho, limpava-lhe o quarto onde a merda se espalhava como enfeite, cozinhava a comida que ele não comia, vestia-lhe os sapatos e lhe chamava pelo nome ao qual ele não mais atendia – horácio.

Um dia horácio caiu no pátio. E com ele foi enterrada toda a sua ridícula e amarela humanidade.

Eliane Marques

domingo, 24 de janeiro de 2010

POESIA saindo do forno CERO


SÁBATO 15


é cega invadida por casas

celibatarias avô de tréguas

advogado com seus terremotos


e bêbado horacio

habituado a alimentar o canario

com a comida do gato


é casa aberta aos venenos

em conserva recolhidos

por um braço solitário


o mesmo braço


sob o qual adormece e lê

ou escreve um poeta

de olhos apagados


os mesmos olhos delatores

da magoa dos lençóis

desmaiados sobre o pó


o pó da sombra que atada à

sua grande boneca negra

lamenta o açúcar do pão e o

sempre dia murado funerável

Eliane Marques
 
(Eliane Marques é integrante da Escola Grupo Cero de Poesia, autora do livro RELICÁRIO e, com outros autores, do ARADO DE PALAVRAS- bilingue)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

POESIA saindo do forno CERO




MADEIRAS




é álbum

de rostos difusos

juntados pelo ocaso



a camponesa a misturar

o sapato negro

com o barro



no aberto entre eles

o carvalho a criança

o saquinho de leite e



um inseto com

a cara na vidraça



seres de raízes des-asadas



e têmperas de sol

onde o amarelo lava

a solidez de uma mulher



que no contragolpe de madeira

transporta a pátria exilada


Eliane Marques

 
(Eliane Marques é integrante da Escola de Poesia Grupo Cero,
que acaba de lançar seu primeiro poemário: RELICÁRIO)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CADÁVER ESQUISITO

10 de novembro de 2009


antes do tempo perdido

entre reliquias, a poesia

enquanto as palavras

saem a voar...

vem logo, de longe

espelho a transparecer

já se sabia que podia ser amor eterno

do sol da noite brota 1 estrela


ou:


do sol da noite brota 1 estrela

já se sabia que podia ser amor eterno

vem logo, de longe

espelho a transparecer

enquanto as palavras

saem a voar...

entre reliquias, a poesia

antes do tempo perdido




Escrito na noite comemorando o sucesso das atividades do Grupo Cero na 55ª Feira do Livro de PoA: Lançamento do RELICÁRIO - Eliane Marques - GRUPO CERO;
Sarau em Homenagem a Schiller e Por que psicanálise e poesia?

domingo, 25 de outubro de 2009

POESIA CERO: poema de RELICÁRIO - primeiro poemário de Eliane Marques


CORTEJO



mães
da sepultura
sem dono


taconeiam
epitáfio
de salto


cadáveres
indecisos
marcham


com
olhos
arrancados



à frente


copos-de-leite
urinam
morte
em meus braços

ELIANE MARQUES (integrante da Escola de Poesia Grupo Cero)
In: RELICÁRIO
Primeiro poemário da autora a ser lançado nesta 55ª Feira do Livro de PoA
em 10 de novembro às 20h30; com Mesa Redonda: Por que psicanálise e poesia?
às 19h na Sala Oeste do Santander Cultural)