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quinta-feira, 14 de junho de 2012

LENDO OS GRANDES POETAS

VIVEM em nós inúmeros; e penso ou sinto, ignoro Quem é que pensa ou sente. Sou somente o lugar Onde se sente ou pensa. Tenho mais almas que uma. Há mais eus do que eu mesmo. Existo todavia Indiferente a todos. Faço-os calar: eu falo. Os impulsos cruzados Do que sinto ou não sinto Disputam em quem sou. Ignoro-os. Nada ditam A quem me sei: eu 'screvo. FERNANDO PESSOA (Odes de Ricardo Reis) (1888.Largo de São Carlos. 1935. Hospital de S. Luís)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POR QUE ESCREVO?

   
   Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros,
e a poesia ou a literatura uma borboleta que,
pousando-me na cabeça, me torne tanto mais
ridículo quanto maior for a sua própria beleza.


Fernando Pessoa  (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935) 

do LIVRO DO DESASSOSSEGO.


sábado, 23 de abril de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

 

Vivem em nós inúmeros 

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.


Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


Fernando Pessoa  (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
Odes de Ricardo Reis no livro: OBRA POÉTICA, Editora Nova Aguiar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

LENDO OS GRANDES POETAS

PALAVRAS DE PÓRTICO

NAVEGADORES ANTIGOS tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessario; o que é necessario é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essencia anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a patria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa  (Lisboa, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935)
no livro: OBRA POÉTICA, Editora Nova Aguiar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

LENDO OS GRANDES POETAS

XLVI - Deste Modo ou Daquele Modo


Deste modo ou daquele modo.

Conforme calha ou não calha.

Podendo às vezes dizer o que penso,

E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,

Vou escrevendo os meus versos sem querer,

Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,

Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse

Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto

Sem pensar em que o sinto.

Procuro encostar as palavras à idéia

E não precisar dum corredor

Do pensamento para as palavras



Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.



Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.



E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,

Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.

E assim escrevo, ora bem ora mal,

Ora acertando com o que quero dizer ora errando,

Caindo aqui, levantando-me acolá,

Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.



Ainda assim, sou alguém.

Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.

Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio.



Isto sinto e isto escrevo

Perfeitamente sabedor e sem que não veja

Que são cinco horas do amanhecer

E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça

Por cima do muro do horizonte,

Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos

Agarrando o cimo do muro

Do horizonte cheio de montes baixos.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
IN:: O Guardador de Rebanhos.

domingo, 11 de outubro de 2009

LENDO OS GRANDES


Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento -
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.

(Fernando Pessoa. In: Fausto. Tragédia
Subjectiva)