quinta-feira, 10 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
PARA SEMPRE
A la deriva en un nube de humo,/
sigo la raya que en el suelo del jardín deja un caracol/
hasta el muro de piedra./
Solamente al final me acuclillo, veo/
lo que hay que hacer y, de repente,/
me adhiero a la piedra húmeda./
Empiezo a mirar lentamente alrededor/
y a escuchar, utilizando para ello/
mi cuerpo entero como el caracol/
utiliza el suyo, relajado, pero alerta./
Atención! Esta noche es un hito/
en mi vida. Después de esta noche,/
como podré volver a mi/
vida anterior? Mantengo los ojos fijos/
en las estrella, les hago señales/
con mis antenas. Me sujeto bien/
durante horas, descansando sin más./
Más tarde, la pena comienza/
a gotear en mi corazón./
Recuerdo que mi padre está muerto,/
y que me voy a ir pronto/
de esta diudad. Para siempre./
Adiós, hijo, dice mi padre./
Casi al amanecer, bajo/
y vuelvo errabundo a casa./
Todavía están esperándome,/
el espanto aletea en sus rostros/
cuando se encuentran con mis nuevos ojos por primera vez./
RAYMOND CARVER (25.maio.1938 Clatskanie, Estados Unidos - 02.agosto.1988,Reno,EE.UU.)
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Raymond Carver
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Homenagem aos nativos desta terra!
UM ÍNDIO
Caetano Veloso
Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante/
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante/
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante/
Depois de exterminada a última nação indígena/
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida/
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias/
Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi/
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi/
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi/
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá/
Um índio preservado em pleno corpo físico/
Em todo sólido, todo gás e todo líquido/
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro/
Em sombra, em luz, em som magnífico/
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico/
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio/
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer/
Assim, de um modo explícito/
(Refrão)
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/
Surpreenderá a todos, não por ser exótico/
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/
Quando terá sido o óbvio
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sábado, 7 de abril de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
GATO NUM APARTAMENTO VAZIO
Morrer - isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
Ouvem-se passos na escada
Mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também não é a mesma.
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.
Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.
WISLAWA SZYMBORSKA (1923, Bnin, Polônia- 1º/fev/2012, Cracócia, Polônia)
do Livro: Poemas (tradução: regina Przybycien)
Morrer - isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
Ouvem-se passos na escada
Mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também não é a mesma.
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.
Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sob o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.
WISLAWA SZYMBORSKA (1923, Bnin, Polônia- 1º/fev/2012, Cracócia, Polônia)
do Livro: Poemas (tradução: regina Przybycien)
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sexta-feira, 23 de março de 2012
verso b
"A LIBERDADE JAMAIS SERÁ ALGO OUTORGADO
SENÃO QUE DEVERÁ SEMPRE SE CONQUISTAR."
Simone de Beauvoir (Paris, 9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986)
SENÃO QUE DEVERÁ SEMPRE SE CONQUISTAR."
Simone de Beauvoir (Paris, 9 de janeiro de 1908 — Paris, 14 de abril de 1986)
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Simone de Beauvoir
terça-feira, 20 de março de 2012
verso b
Angustia (fragmento)
" Allá están nuevamente gritando mis deseos. Callan acobardados, se vuelven inofensivos, se transforman, corren hacia el pueblo reconstruido. Un escalofrío me atraviesa la columna, me encauza los dedos sobre el papel. Naturalmente son los deseos los que me llevan, aunque lo atribuyo todo a la lluvia que golpea el tejado y al recuerdo de aquél tamiz enfurecido que cae del cielo todos los días. "
Homenagem a Graciliano Ramos de uma tradução de seu livro ANGÚSTIA(1936)
Gracilino Ramos (Pernambuco 1892-1953)
" Allá están nuevamente gritando mis deseos. Callan acobardados, se vuelven inofensivos, se transforman, corren hacia el pueblo reconstruido. Un escalofrío me atraviesa la columna, me encauza los dedos sobre el papel. Naturalmente son los deseos los que me llevan, aunque lo atribuyo todo a la lluvia que golpea el tejado y al recuerdo de aquél tamiz enfurecido que cae del cielo todos los días. "
Homenagem a Graciliano Ramos de uma tradução de seu livro ANGÚSTIA(1936)
Gracilino Ramos (Pernambuco 1892-1953)
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Graciliano Ramos
quinta-feira, 15 de março de 2012
verso b
NAVIO NEGREIRO de CASTRO ALVES
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
CASTRO ALVES (Curralinho,Bahia, 14 de março de 1847 - Salvador 1871).
HOMENAGEM DO VERSO B ao DIA NACIONAL DA POESIA (14 de março)
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
CASTRO ALVES (Curralinho,Bahia, 14 de março de 1847 - Salvador 1871).
HOMENAGEM DO VERSO B ao DIA NACIONAL DA POESIA (14 de março)
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segunda-feira, 12 de março de 2012
verso b
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira (Recife - 19 de abril de 1886/ Rio de Janeiro-1968)
(do Livro: Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.)
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quinta-feira, 1 de março de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.
Wislawa Szymborska (Kórnik,Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro Wislawa Szymborska - poemas
Tradução de Regina Przybycien
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.
Wislawa Szymborska (Kórnik,Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro Wislawa Szymborska - poemas
Tradução de Regina Przybycien
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Wislawa Szymborska
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Poesia Musical Brasileira
ÁGUAS DE MARÇO
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É pereba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumueira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, caminho
Resto, toco, pouco, sozinho
Caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.
TOM JOBIM c/Elis Regina
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É pereba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumueira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, caminho
Resto, toco, pouco, sozinho
Caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.
TOM JOBIM c/Elis Regina
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sábado, 25 de fevereiro de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
VIETNAM
Mujer, ¿cómo te llamas? -No sé.
¿Cuándo naciste, de dónde eres? -No sé.
¿Por qué cavaste esta madriguera? -No sé.
¿Desde cuándo te escondes? -No sé.
¿Por qué me mordiste el dedo cordial? -No sé.
¿Sabes que no te vamos a hacer nada? -No sé.
¿A favor de quién estás? -No sé.
Estamos en guerra, tienes que elegir. -No sé.
¿Existe todavía tu aldea? -No sé.
¿Éstos son tus hijos? -Sí.
WISLAWA SZYMBORSKA (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
De "Mil alegrías -Un encanto-" 1967
Versión de Gerardo Beltrán
Mujer, ¿cómo te llamas? -No sé.
¿Cuándo naciste, de dónde eres? -No sé.
¿Por qué cavaste esta madriguera? -No sé.
¿Desde cuándo te escondes? -No sé.
¿Por qué me mordiste el dedo cordial? -No sé.
¿Sabes que no te vamos a hacer nada? -No sé.
¿A favor de quién estás? -No sé.
Estamos en guerra, tienes que elegir. -No sé.
¿Existe todavía tu aldea? -No sé.
¿Éstos son tus hijos? -Sí.
WISLAWA SZYMBORSKA (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
De "Mil alegrías -Un encanto-" 1967
Versión de Gerardo Beltrán
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
POESIA SAINDO DO FORNO CERO
LUZ 1
Os meus pés
sepultados nos sapatos
me levam
cavalo alado
a todos os rincões do oceano.
Quisera ser aprendiz de feiticeiro
a extrair de cada coisa
sua magia.
Habito as pedras
as ondas
que dizem
do nunca, do nada, do
infinito caminho.
Me libertam
da pequena história que seguia.
Meu passado estala cego
com um paraquedas cavalgo
o apocalipse que estoura
em um novo entardecer.
Lúcia Bins Ely
do Livro: SOMBRA E LUZ
Editorial Grupo Cero Brasil, 2011
Os meus pés
sepultados nos sapatos
me levam
cavalo alado
a todos os rincões do oceano.
Quisera ser aprendiz de feiticeiro
a extrair de cada coisa
sua magia.
Habito as pedras
as ondas
que dizem
do nunca, do nada, do
infinito caminho.
Me libertam
da pequena história que seguia.
Meu passado estala cego
com um paraquedas cavalgo
o apocalipse que estoura
em um novo entardecer.
Lúcia Bins Ely
do Livro: SOMBRA E LUZ
Editorial Grupo Cero Brasil, 2011
sábado, 11 de fevereiro de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
FIM E COMEÇO
Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.
Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.
Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.
A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.
As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las
as mangas ficarão em farrapos.
Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.
Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.
Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.
Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Continuamos com nossa homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu em casa, tranquilamente, dormindo.
Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.
Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.
Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.
A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.
As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las
as mangas ficarão em farrapos.
Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.
Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.
Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.
Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Continuamos com nossa homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu em casa, tranquilamente, dormindo.
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Wislawa Szymborska
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu em casa, tranquilamente, dormindo.
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu em casa, tranquilamente, dormindo.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
POSSIBILIDADES
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu dormindo.
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
Wislawa Szymborska (Bnin-Polônia- 1923, Cracóvia- 2012)
Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução
Regina Przybycien
Homenagem a Wislawa Szymborska quem no último dia 1º de fevereiro morreu dormindo.
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
POESIA POPULAR BRASILEIRA
HOMENAGEM A ELIS REGINA
POT-POURRI "O MORRO"
(continuação)
Samba do carioca
(Carlos Lyra/Vinicius de Moraes)
Vamos, carioca, sai do teu sono devagar
O dia já vem vindo aí
E o sol já vai raiar
São Jorge, teu padrinho, te dê cana pra tomar
Xangô, teu pai, te dê mulheres para
amar
Esse mundo é meu
(Sérgio Ricardo/Ruy Guerra)
Saravá, Ogum, mandinga da gente continua
Cadê o despacho pra acabar
Santo guerreio da floresta
Se você não vem eu mesma vou brigar
Se você não vem eu mesma vou brigar
A felicidade
(Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes)
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Brilha tão leve, mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
POT-POURRI "O MORRO"
(continuação)
Samba do carioca
(Carlos Lyra/Vinicius de Moraes)
Vamos, carioca, sai do teu sono devagar
O dia já vem vindo aí
E o sol já vai raiar
São Jorge, teu padrinho, te dê cana pra tomar
Xangô, teu pai, te dê mulheres para
amar
Esse mundo é meu
(Sérgio Ricardo/Ruy Guerra)
Saravá, Ogum, mandinga da gente continua
Cadê o despacho pra acabar
Santo guerreio da floresta
Se você não vem eu mesma vou brigar
Se você não vem eu mesma vou brigar
A felicidade
(Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes)
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Brilha tão leve, mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
POESIA MUSICAL BRASILEIRA
Homenagem a Elis Regina
Poup-Pourri O MORRO
O morro não tem vez
(Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes)
O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas olhem só vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar
Escravo no mundo em que estou
Escravo no reino em que sou
Mas acorrentado ninguém pode amar
Mas acorrentado ninguém pode amar
Feio não é bonito
(Carlos Lyra/Giangrancesco Guarnieri)
Feio, não é bonito
O morro existe mas pedem pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza é só o que se tem pra cantar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente e nunca se deixa quebrar
Ama, o morro ama
Amor bonito, amor aflito
Que pede outra história
Poup-Pourri O MORRO
O morro não tem vez
(Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes)
O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas olhem só vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar
Escravo no mundo em que estou
Escravo no reino em que sou
Mas acorrentado ninguém pode amar
Mas acorrentado ninguém pode amar
Feio não é bonito
(Carlos Lyra/Giangrancesco Guarnieri)
Feio, não é bonito
O morro existe mas pedem pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza é só o que se tem pra cantar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente e nunca se deixa quebrar
Ama, o morro ama
Amor bonito, amor aflito
Que pede outra história
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
POESIA MUSICAL BRASILEIRA
Homenagem a Elis Regina
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
POESIA MUSICAL BRASILEIRA
(continuação) Homenagem a Elis Regina
Tou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Querm tiver me escutando - atenção, atenção
Que me escute com cuidadeo
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando oque bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo agora e louvo sempre
Porque grande sermpreé
Louvo a força do homem
A beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvao a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade de amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer
Tou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Quem tiver me escutando - atenção, atenção
Falo de peiot lavado
Louvando o que bem emrece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando o que bem emrece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda gente cantar
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado
Se me ouviram com atenção - atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando oruim de lado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado.
Tou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Querm tiver me escutando - atenção, atenção
Que me escute com cuidadeo
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando oque bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo agora e louvo sempre
Porque grande sermpreé
Louvo a força do homem
A beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvao a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade de amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
Da vida pra não morrer
Tou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Quem tiver me escutando - atenção, atenção
Falo de peiot lavado
Louvando o que bem emrece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando o que bem emrece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda gente cantar
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado
Se me ouviram com atenção - atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando oruim de lado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
LENDO OS GRANDES POETAS
LOUVAÇÃO - C/ JAIR RODIGUES
(Gilberto Gil/Torquato Neto)
1966
UMA HOMENGEM A ELIS REGINA (lembramos dela ao passarem 30 anos de sua morte)
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção - atenção, atenção
E me escute com cuidado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
(continuará)
ELIS REGINA C/ JAIR RODRIGUES de Gilberto Gil/ Torquato Neto (1966)
(Gilberto Gil/Torquato Neto)
1966
UMA HOMENGEM A ELIS REGINA (lembramos dela ao passarem 30 anos de sua morte)
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção - atenção, atenção
E me escute com cuidado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
(continuará)
ELIS REGINA C/ JAIR RODRIGUES de Gilberto Gil/ Torquato Neto (1966)
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