terça-feira, 27 de abril de 2010

POESIA saindo do forno CERO

    
             "ao nosso redor chuva chove"

     I
água, água
me molha o pelo
me molha me molha
me brotam...

e mais água água
águaviva
gerando...

chovo colho colhe
chove chove chove

chove chove chove
cai do céu vida sobre a terra

     II

boiam na poça
e meus pés
molhados
meus pés
molhados
absorvem no mar da linguagem
chispas carnais
zarpam de mim
feito letreiros luminosos
de sonho

     III

chuva que me faz alma
palma que me escreve
verde vade vida
verso em dó
em pena de ninguém
restea de esperança
brota feito bomba atômica
atônita
permaneço
          dança

     IV

vestigios de ninguém
arrastando tudo
água que cai sob o ceú de capricornio
abre clareira
e nada
e nado
nos escombros
sob os poetas mortos

Lúcia Bins Ely

sábado, 17 de abril de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO - VII


E vi,
- minha alma submergida no mortal veneno,
da supremacia -
a visão transcósmica,
uma visão,
mais além da vida.

Os abismos, as pedras,
- que embruteciam e alegravam
de uma só vez,
nosso horizonte -
os mais altos cumes,
os pássaros de fogo,
- a cálida metralhadora e o álcool -
e nossa propria maneira de viver,
tudo,
contra nós mesmos.

Imerso,
em semelhante e juvenil loucura,
inventei a velhice e propus,
para os mais anciãos,
a muerte súbita.

Tanta força,
quis imaginar,
seria suficiente,
para lançar a voar,
alguns filhos,
algumas palavras.

MIGUEL OSCAR MENASSA
do livro: Canto a nossotros mismos tambiéns somos América - 1978

TOURO SENTADO O VISIONARIO - VI -

E não obstante,
nesse dia,
a guerra,
não foi dura,
para meus jovens.

Se tratava de um duelo,
- uma fina competição entre valentes -
eu
tive que matar
e nesse gesto,
onde tudo era nosso,
- onde com a violencia da verdade,
ficava claro,
que o poder,
que o bendito todo poder,
era nosso corpo
 perdemos,
a última batalha.


MIGUEL OSCAR MENASSA
do livro: Canto a nosotros mismos también somos América - 1978.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO - V -

E a noite da ardente loucura,
da loucura coletiva, passou lentamente.
E todo o ritmo
e toda a algazarra do tam-tam,
- violento e vermelho de ira pelo amanhecer -
foram, nossas historias.
Tudo foi, grandeza atrás de grandeza.
Nenhum de nós chorou, porque chorar,
não conhecia o coração do indio. A marca,
a verdadeira marca da historia, para nós,
foi a altivez, a soberbia.
Nunca fomos humildes, antes, sórdidos. Sabíamos,
que mais além da colina, ao homem,
o esperava a morte.

Miguel Oscar Menassa
do Livro: Canto a nosotros mismos también somos América

terça-feira, 6 de abril de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO - IV -

Nesta noite, a última, quero festa
Uma agonia lenta, até o amanhecer, com fogo de licores,
com nossas drogas da visão perene e a famosa,
brilhante pinturinha para indios, em nosso rosto,
em nosso peito moldado pela vida,
na arquitetônica bunda, das belas mulheres.
Vermelhos tambores, artistas do ruído, para a dança.

Cada hora, dançando, é um milagre da vida.
Cada hora, dançando, se transforma em milenios.
Ser, com este ritmo, lhes asseguro,
seremos históricos.

Miguel Oscar Menassa
do livro: Canto a nosotros mismos también somos América

sábado, 27 de março de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO -III-

Anoitece, agora, em nós,

e a branca espuma da raiva,

envolve tudo.



A vida se entretém nos olores.



Tudo procede,

desde mais além da colina,

também,

nosso final.



Envelheci sentado,

aconselhando meus jovens,

a deterem-se,

frente a qualquer maravilha da terra,

frente a qualquer besteira da natureza

contra os sentidos.

E no entanto,

me decido,

quero morrer de pé.

E se é necessario,

atado a meu cavalo.



Miguel Oscar Menassa


De "Canto a nosotros mismos también somos América", 1978

sexta-feira, 26 de março de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO - II -

Pequena árvore da colina,

estoura no sinal.

Desde suas raízes,

fogos artificiais

se incendeiam

entre o aromático perfume.

Quero dizer

que nossa pequena águia do trono,

também,

morreu.

Doçura,

a doçura de seus labios,

seu voo etereo.

Sua franca risada,

quando se burlava da guerra.

Conhecer,

conhecia – morreu por isso - na propria colina,

o estouro sangrento,

da árvore do amor.



Miguel Oscar Menassa


De "Canto a nosotros mismos también somos América", 1978

quarta-feira, 24 de março de 2010

TOURO SENTADO O VISIONARIO - I -


Aqui,

touro sentado,

amante do silencio.

Mirou o sol,

é o entardecer,

e sei,

que tudo é efêmero.

Virão eras atômicas,

e arrancarão de raiz nosso reino,

do centro da terra.

O sol cairá,

como um fruto podre,

como um pássaro ferido,

em pleno voo.

Detrás das colinas

vejo para o homem,

sangue e lixo,

um silvo gelado e noturno.

Aqui,

sentado,

amante,

touro do silencio,

vejo para o homem,

detrás das colinas.

A morte.



Miguel Oscar Menassa


De "Canto a nosotros mismos también somos América", 1978

segunda-feira, 8 de março de 2010

HOMENAGEM À MULHER TRABALHADORA

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

POEMA 35                                   

É um momento de criação infinita,
me disse, estou a ponto de morrer.

Enquanto isso gozava pouco ou mais ou menos
a vida com ela era um idilio de sonhos,
tínhamos grandes peleias, sobretudo,
no dia depois
de haver gozado com exagero.

À noite, que trepada! Santo Deus!
Na manhã seguinte, propriamente, o calvario.

Ao principio, sempre queria matá-la
até que um dia pude compreender
que era seu gozo o que a matava.
Cada vez que me causava dano
eu, em vingança, a fazia gozar.

O gozo me sobressalta, não posso evitar,
primeiro sofro porque sinto que vou morrer,
depois, quando me encontro relaxada e trauquila,
toda viva, sofro porque algum humano me salvou.
O odio mais profundo sinto
quando me dou conta que devo tudo a ele,
um dia, ele me disse:
vagina funcionará, e vagina funcionou.
Depois, na metade de uma trepada,
me disse com ternura: a mulher deve poder
dizer todas suas coisas, escrevê-las,
fazer de suas coisas a historia da mulher,
de nosso tempo, de nosso mundo.
Depois, me ensinou a amar o trabalho
e ontem à noite me disse: já és livre.
Já sabes escrever, amar e trabalhar
e isso é o que necessita uma mulher
para poder produzir sua propria liberdade.

Escrever para que seja possível a vida.
Amar para poder construir o mundo
no qual haveremos de viver, pensar
e trabalhar para que símbolo e carne
não possam se confundir nunca mais.

Me encanta, disse ela com indolencia, a vida
que me propões antes de me abandonar.
E não te perguntaste que, talvez,
prefiro escrever a historia de nosso amor
que foi longinquo e impossível
e com o amor seguir insistindo
ainda que nada se possa de todo ou bem,
e trabalhar só para poder te comprar.

A mim, para dizer a verdade, lhe disse,
não me importam muito os motivos
nem quem haverá de se beneficiar
com o que possas produzir.
Só quero que experimentes
essa virtude do homem
de poder, com suas mãos,
modificar o mundo.

E quanto à poesia e ao amor,
se fosses capaz de entender
a força do trabalho,
te daria plena liberdade.
Podes escrever melhor que eu, se o desejas,
e podes me amar tanto quanto queiras.
E se não és capaz de tanta liberdade
podes escrever pior que eu
e podes amar outros amores
ou condenar-te a viver com os enforcados
ou encerrar-te em teu quarto,
limpando os colares e os arinhos de ouro
e passando a blusinha azul e branca
que tua mãe usava antes de morrer.
Também podes, se queres,
romper todos meus beijos,
queimar todas as cartas,
fazer picadinhos dos bordados do tempo
e começar, sozinha, desde o começo,
tudo de novo.

MIGUEL OSCAR MENASSA
DO LIVRO: LA MUJER Y YO

http://www.menassa.com/
http://www.menassacandidatopremionobelliteratura2010.com/

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

JUBILAÇÃO


Depois de haver cumprido

com todas as tarefas, me pergunto

muito próximo dos setenta anos



quem me ama? quem vive em   mim?                                                                                                                                                                                                                                                                   
Acaso, eu tenha sido,

apesar de todos meus amores

apesar de todos meus trabalhos,

um homem solitario.



Minha familia, meus filhos,

a mulher do começo,

meus amados discípulos,

saberão algo de mim?



Algum de meus versos,

haverá entrado em suas vidas?

Algum de meus versos,

aliviou alguma dor?



E essa mulher em plena liberdade

que ambiciona meu canto

pode algum homem amar

essa beleza interminável?



Algum homem terá podido

deixar crescer uma mulher a seu lado

para vê-la partir, se é necessario,

porque o mundo e o amor a esperam?



E não quero exagerar

só quero me perguntar

por que a vida haverá passado?

que dor me atormentou?



Soube acaso amar e dar

sem me perguntar por quê?

E a minha amada Poesia

soube deixa-la voar?



Dei asas ao poema

a meus versos asas dei,

mas nunca pudemos

de nossa casa sair.



O poema está voando

e ninguém o deterá.

Voar era seu destino

mas o meu, era cantar.



Por isso deixo partir

versos, amores e ditos.



Quando voando se afastam

começo uma historia nova.



E não quero molestar

nem a jovens nem a mais velhos

mas devo confessar

que minha alegria é brutal.



A deusa Poesia e belas mulheres

ficaram a meu lado.

Até meu proprio coração

está perto de mim.



Talvez já estou iludido

e imagino uma vida,

nova, esplêndida e diversa

que nunca poderei viver.



Mais, todavia, desejo

estar muito bem preparado

da alma, dos dinheiros,

do corpo, dos amores.



Para o caso de

se chegasse a acontecer

um dia qualquer desses

que os humanos, contentes,

nos pomos a conversar.



Para o caso de

se chegasse a vir

esse dia quero estar

defendido por meus versos

e algum pensamento mais.



E se nunca há de chegar

não importa, sigo estudando,

escrevendo e denunciando.

Amando; sendo feliz.


Miguel Oscar Menassa, 2010

(da revista Indio Gris - www.indiogris.com)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

APOIE A CANDIDATURA DE MIGUEL OSCAR MENASSA AO PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010

Temos a alegria de comunicar-te a indicação do nome de MIGUEL OSCAR MENASSA
como CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010.
Caso desejes apoiar esta candidatura, te sugerimos um singelo modelo de carta que podes
imprimir, assinar e enviar diretamente à COMISSÃO DO PREMIO NOBEL DE LITERATURA
cujo endereço é:

Comitê do Premio Nobel de Literatura:
Literature Nobel Prize/Nobel Stiftelsen
Box 5232 S.-102 45
Stockholm / SWEDEN



Modelo:                                                                                                 



                                                                                                    Nome, Profissão
                                                                                                               Endereço
                                                                                                  CEP, Estado, País


Comitê do Premio Nobel de Literatura:
Literature Nobel Prize/ Nobel Stiftelsen
Box 5232 S.-102 45
Stockholm / SWEDEN


                                                                  ..................,......de.................... de 2010.


Excelentíssimos Senhores,


[Recomendação e apoio à candidatura, junto a um comentario pessoal

seguido de umas linhas argumentando tal apoio]


Atenciosamente,

___________________
nome completo
Profissão

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

INDIOS III


Eu sou, de pedra, o indio americano,
que não matou Espanha na conquista.
Venho de um céu, cálido, sem deuses.

De uma planicie fértil, quase sem limites.
Sou o sangrante e falante guarani,
a pura lágrima, límpida do maia,
o sulco aberto, com firmeza, pelo inca,
a tristeza, infinita, do que não morre.

Sou a árvore, a fruta, o ouro, a pérfida esmeralda.
Prata despedaçada, sangrento cobre metralhado.
Montanhas e mulheres saqueadas em nome de Deus.

Sou da América o verbo, a pluma diferente,
indígena e galáctico, histórico e supérfluo,
granítica presença, fel dos tempos.

de MIGUEL OSCAR MENASSA

do Livro: AMORES PERDIDOS, Grupo Cero, 1995;
poema publicado também no livro:
POESÍA Y PSICOANÁLISIS (1971-1991)
20 AÑOS DE LA HISTORIA DEL GRUPO CERO, Grupo Cero, 1995.  

O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
apoie sua candidatura, escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829
e te diremos como.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

POESIA saindo do forno CERO


Quero me desvencilhar de seus anseios
oh, rinoceronte,
desta vez escolho
nos vãos das palavras
empreender minha viagem.

Navego entre uma palavra e outra
carregando os mortos às costas
até encontrar uma tumba
arejada e perfumada.

Vou recostar esta cruz
na relva tardia no muro branco
da cidade,
onde os planos dos bandidos
foram procriados.

Assim me desopilo
me desconheço
me desmudeço
me enrubeço.

Me palavreio
e nem o amor alcança.


Lúcia Bins Ely

SAINDO DO FORNO


hORÁCIO


Caiu no pátio entre as casas das irmãs. Depois da partida da mãe, continuou ali onde sempre estivera, num velho quarto de madeira bruta, com uma porta de frente sem porta, uma janela lateral cuja mirada enfrentava o lodo que corria feito serpente da casa principal às de fundos, e um guarda-roupa espelhado no qual se guardavam as fantasias dos parentes de antanho. À noite vestia roupas de tule amarelo e sapatos de lantejoulas douradas porque quando alguém morre aos outros não é dado seguir vivendo.

Então, sempre se estava na época de ocultar a morte. Não se tratava de obedecer ao ritmo de uma estação, até se invejava as laranjas que só nasciam no inverno. Para o sepultamento de uma tal palavra toda a estação era primavera. A morte da Negrinha fora ocultada de minha avó, a morte de minha avó fora ocultada de mim e agora a morte dele se ocultava de minha mãe, de modo que cada um, deixando-se enganar pela vida, seguia vivendo.

A Negrinha, minha mãe e ele eram irmãos e a morte, pertencente a todos, se guardava como relíquia numa caixa de madeira fabricada ao longo da ilusão da vida. Às vezes a madeira apodrecia como apodreciam as paredes do quarto e o piso inchado com o acúmulo dos mortos. Mesmo assim ele vestia o tule amarelo e as lantejoulas douradas e seguia entre o lodo das suas asas. Um dia caiu no pátio. Caiu com as mãos seguras numa árvore de laranjas-do-céu que sua mãe cultivara. Nunca fora religioso, o tombo nesse local se deveu a facilidade de carregamento do corpo, pois a árvore ficava próxima à casa da irmã mais velha que saberia suportá-lo. Era uma das mulheres da família que nunca se deixara levar pela mentira da vida, já nascera morta, pouco lhe importava a dos outros. Assim facilitava a burocracia do enterramento fazendo o que havia de ser feito, sem muita lengalenga e falsas despedidas chorosas. Essa mulher substituíra a mãe nos cuidados que o irmão nunca tivera, cuidados que desde cedo foram iguais aos de um enterramento. Dava-lhe banho, limpava-lhe o quarto onde a merda se espalhava como enfeite, cozinhava a comida que ele não comia, vestia-lhe os sapatos e lhe chamava pelo nome ao qual ele não mais atendia – horácio.

Um dia horácio caiu no pátio. E com ele foi enterrada toda a sua ridícula e amarela humanidade.

Eliane Marques

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A VERDADEIRA VIAGEM

(Parte 4)

Já nos perguntarão e nós diremos:
temos estado com o amor
e temos estado, também, com a morte.
No princípio não acreditarão,
dirão que para o homem é impossível.
Nos pedirão provas,
nós lhes mostraremos como se lhes mostrássemos o céu,
alguns poemas e conseguiremos com esse gesto,
que chegue até nós o tempo da burla.

Grandes embarcações que nada buscam,
- porque creem ter -
passarão uma e outra vez a nosso lado,
tratando de fundir com seus jogos,
nossa pequena balsa enamorada.
Nos chamarão desde suas luxuosas embarcações,
com os nomes com os quais se nomeiam os desperdícios.
Poetas. Loucos. Assassinos.
E na algaravia estúpida de seus jogos,
tudo será possível. Nos atirarão algumas pedras
e se dirão, nada os ofende e enfurecidos,
nos gritarão: Combatei covardes! Defendam-se.

E depois de mil vezes e outras mil,
com os olhos desorbitados pelo cansaço
e também pela surpresa de ver,
nossa pequena balsa enamorada seguindo seu caminho
e nós, tranquilamente, sobre ela, remando.

Depois de ter atravessado ilesos o caminho da batalha,
virá, lhes asseguro, o tempo do ouro.

Eles, aborrecidos de suas próprias risadas,
quererão jogar o nosso jogo.
Quanto custa essa madeira a ponto de apodrecer
que usais de embarcação? e quanto vossa vida?
Quanto essas velhas cartas de navegação?
E quanto esses poemas?
Custam, senhor, o que custa a um homem,
deixar de se pertencer e entregar-se ao poema.
Quanto dinheiro custa isso?
                                         Todo e nenhum.
Talvez sua própria vida, acaso.
Quanto dinheiro custa minha vida, então?
Todo e nenhum. Sua vida são palavras como todas as vidas
e isso, tenho entendido, vale nada.
E quanto dinheiro custa pensar assim?
Todo e nenhum. Quem sabe há que submergir,
remar e não esperar nada. Isso custa.
Submergir e não esperar nada, nas trevas,
para outra obscuridade maior, o poema.

Uma vez enamorados o amor e a morte
e rechaçados o ouro e a batalha por impuros,
virá e de nenhuma parte,
- porque ela viveu sempre em nós -
a loucura.
              O pior de todos os estreitos,
surge imprevisto,
por ser lei de seu destino, a surpresa.
E não vem por nenhuma briga,
porque traz o desejo de travar amizade com o poeta.

E quando chega nos diz entre sussurros,
que seu mundo e o mundo da poesia,
são o mesmo mundo.

Diante da dúvida há que seguir remando.

Informe, se deixa moldar por nossas palavras,
e no tempo ela, também, tem sua grandeza.
Eu sou do amor, nos disse, esse desenfreio
e a paixão eterna da morte.
Tenho por costume depreciar o ouro,
e no entanto,
as ânsias por matar que geram suas leis,
estão intoxicadas de loucura.
Aí, ela e a poesia se parecem.
A instantes de se juntar em nossa mirada,
como si fossem uma só coisa,
a poesia, velha loba do mar,
rema um trecho conosco para nos mostrar,
que a loucura, desde que chegou,
permanece no mesmo lugar da pequena balsa,
sem remar, recordando todo o tempo seu passado.

Contentes de ter compreendido a diferença,
encerramos à loucura num poema
e seguimos remando até que um dia,
convencidos de sua torpeza para a navegação,
a entregamos ao amor e à morte,
para que a loucura, aprenda a voar.

de MIGUEL OSCAR MENASSA
(do Livro: EL VERDADERO VIAJE, bilingue, Grupo Cero, 1988)

O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
apóie sua candidatura, escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829
e te diremos como.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

AGRADEÇO O MIMO DE Maria Bózoli

Querida amiga blogueira, Maria Bózoli,

Fiquei muito contente com este que é o primeiro premio que o Blog GRUPOCERO VERSO B recebe!!!
Minha amiga, Maria Bózoli, carinhosamente me concedeu este premio, ao qual agradeço muitíssimo em nome do Grupo Cero Verso B, um mimo inestimável... desfrutamos dele com muita alegria!

Gracias, Maria Bózoli,
muchas gracias pelo mimo....

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A VERDADEIRA VIAGEM

(parte 3)

Tomar em nossos braços,

fortalecidos como garras pela crueldade do exercício,

à pessoa amada e seguir remando,

se for necessário com os dentes.

Com o tempo ela, também, fará exercício conosco.


Depois, a dois, a três, com todos,

rota a imensidade do único,

virá a morte.


E não valerá nenhuma valentia,

porque ela se gaba de ter matado,

todos os valentes no primeiro encontro.

E tampouco valerá nenhuma covardia,

porque ela mata tudo o que foge.


Para encontrar-se com a morte, se necessita,

ter aprendido algo do amor:

Nem fugir. Nem arremeter-se contra nada.

Aprender a conversar tranquilamente,

isso ensina o amor.


Quando ela se aproxime e venha por nós,

com sua mirada imensa como ela mesma é imensa,

deixa-la aproximar-se até que escute,

nossa respiração entrecortada pelo encontro.

E ela, enternecida como é seu costume,

nos estenderá a mão,

para que acompanhemos a vossa majestade,

ao imutável reino do silêncio.

Aí, quando se entregar é o mais fácil, mirá-la,

-nos olhos a imensidade que lhe pertence-

e dizer-lhe entre dentes:

Amada morte, minha namorada,

escreverei teu nome em todas as paredes,

beijarei sem temor teus lábios,

como nunca nenhum homem o fez

e te amarei, verás, entre o sangue,

nas grandes catástrofes e também, te amarei,

quando um branco botão reine em teu coração.


A grande emoção que recorre seu grande manto negro,

por encontrar-se de golpe em um poema,

faz da morte uma mulher.

Ela também terminará remando tranquilamente até a orla

e compartilhará meu pão e meus amores

e voará pelas noites para cobiçar em seu seio,

aos que já deixaram de remar e voltará,

para encontrar-se comigo e contar-me suas façanhas.


Como se cada vez fosse a primeira,

voltarei a respirar como respiram os atletas

e por tê-lo aprendido dela,

a olharei enternecido

e lhe direi:

Minha morte enamorada e ela,

será feliz.


Depois há que seguir remando.

(continuará)

de MIGUEL OSCAR MENASSA
(do Livro: EL VERDADERO VIAJE, bilingue, Grupo Cero, 1988)

O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
se queres apoiar sua candidatura, escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829
e te diremos como.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A VERDADEIRA VIAGEM

(Parte 2)


Remar em qualquer direção tampouco serve.

A terra que promete a poesia sempre é a mesma.

se chega ou não se chega.

Ela necessita reis, centauros,

só se deixa semear por revolucionarios e fanáticos,

por homens que em sua terra,

construam sua casa e sua família, suas grandes ilusões.



Quem repita o feito jamais a encontrará.



Remai para chegar a essa terra como ninguém remou

e serão oferecidos a vossa chegada,

manjares que não foram oferecidos a ninguém.

E nas noites de desilusão,

quando nada é possível nessa obscuridade,

pedi aos maiores que contem,

dos grandes navegantes, suas antigas façanhas,

em pequenos barquinhos de papel.



Cada trecho recorrido terá seus perigos.

Nada será fácil para o poeta.

Virá o amor e terá que se enamorar,

até sentir na carne a última dor.

E ao chegar a esse lugar,

terá que se enamorar ainda mais,

até sentir que a carne tremendo é um poema.

E assim chegará a inesquecível noite, o dia,

onde por um instante essa paixão será a poesia.



Diante da dúvida não deixar de remar.

(continuará)

de MIGUEL OSCAR MENASSA
(Miguel Oscar Menassa, do Livro: EL VERDADERO VIAJE, bilingue, Grupo Cero, 1988)
O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
Se queres apoiar sua candidatura escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829

e te diremos como.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A VERDADEIRA VIAGEM

(Parte 1)

Cuidado! Cuidado!

Estamos a ponto de naufragar


Haveis acreditado,

que no transatlântico poderoso navegávamos

e no entanto lhes digo:

minha vida é uma pequena balsa enamorada.

Vejo surgir, é certo, entre as sombras,

uma luz que ninguém apagará.

Formada de versos e perfumes como ventos insondáveis,

como uma catarata de carne abandonada,

que por fim encontra seu reinado.

Reinado de nuvens,

de antigas fragrâncias e de fragrâncias inconcebíveis.

Pequenas balsas enamoradas sempre a ponto de naufragar.


Por agora, toda paixão será remar,

até alcançar o poema nesse movimento.


Depois, algum dia, tereis,

em vossa pequena balsa enamorada vossos grandes amores.


Rema, até ficar sem forças e aí,

compreendereis o motivo de minha paixão.


Iremos pelos mais belos rios e com o tempo,

nos animaremos aos grandes oceanos,

à beleza das borrascas plenas no mar

e sempre, iremos temerosos de desaparecer,

pequenos, nessa imensidade que nos rodeia.


Saber nadar ou ser grandiosos, não servirá de nada,

para chegar, teremos que manter a balsa a flutuar

e manter-nos em cima da balsa.

Isso, todo o mistério.


Um dia a balsa se partirá em mil fragmentos

e cada um,

terá que aprender a sustentar-se em pequenas madeiras.



Se é possível o poema é possível a vida.



Rema, agoniza remando,

até sentir que só é impossível.

Fica sem forças,

olha como outros remam e eu mesmo remo,

com as mãos ensangüentadas pelo esforço,

sem descansar, até encontrar nesse movimento o poema.

E cada um terá sua pequena balsa enamorada.

Dono de sua vida e de sua morte,

pode estender-se na balsa para sempre,

não remar mais e deixar que as águas o levem para qualquer lugar.

E algum outro, remando desesperadamente, ao vê-lo,

escreverá um poema.


(continuará)
 
Miguel Oscar Menassa
 
(Miguel Oscar Menassa, do Livro: EL VERDADERO VIAJE, bilingue, Grupo Cero, 1988)
 
O autor está indicado a CANDIDATO ao PREMIO NOBEL DE LITERATURA 2010,
Se queres apoiar sua candidatura escreva para grupoceroversob@gmail.com ou ligue para (51) 3024.2829
e te diremos como.

domingo, 24 de janeiro de 2010

POESIA saindo do forno CERO


SÁBATO 15


é cega invadida por casas

celibatarias avô de tréguas

advogado com seus terremotos


e bêbado horacio

habituado a alimentar o canario

com a comida do gato


é casa aberta aos venenos

em conserva recolhidos

por um braço solitário


o mesmo braço


sob o qual adormece e lê

ou escreve um poeta

de olhos apagados


os mesmos olhos delatores

da magoa dos lençóis

desmaiados sobre o pó


o pó da sombra que atada à

sua grande boneca negra

lamenta o açúcar do pão e o

sempre dia murado funerável

Eliane Marques
 
(Eliane Marques é integrante da Escola Grupo Cero de Poesia, autora do livro RELICÁRIO e, com outros autores, do ARADO DE PALAVRAS- bilingue)