sábado, 31 de janeiro de 2009

DA CADEIRA DO SONHO





TAXICODEPENDÊNCIA

(de Barbara Corsetti)

O fato é que pegar um táxi é assim como acordar, necessário e incerto.
Naquele dia, Ane e eu estávamos completamente delirantes. Dentro de um guarda-chuvas pequeno, o mais comum das ruas, caminhávamos inventando frases e tiradas, uma da outra. Havíamos escolhido um filme pra assistir, um filme cujo nome sumira da mente. Depois da pesquisa numa lista, a única dica – era brasileiro. O filme desejado era “Lavoura Arcaica”, e, tive agora mesmo um... claro, ele tem tudo pra gerar mil brancos em qualquer cidadão. A relação arcaica de uma família que vive sob frases malditas do tipo – tudo pode acontecer entre nós, podemos confiar apenas em nós, a família é o mais importante na vida. A desgraça de um ser é não sair dos limites familiares, é não construir sua própria visão do mundo. Bem, “Lavoura” veio naquele dia por que, por que...por alguma questão pra nós. O fato mesmo de estar entorpecida por Nelson Rodrigues, toda a tremulação dos seus personagens, suas trágicas escaras do mundo familiar, incesto, traição, fidelidade, assassinatos, desejos e as pernas varizentas das velhas. Chovia muito, era noite, íamos a um aniversário, num restaurante chinês. Pensando agora, era tudo certo pra fechar o dia, depois de uma série de alternados ou alterados movimentos. Depois de horas e horas trabalhando sobre o projeto de nossos sonhos, claro, estávamos excitadíssimas.



1º táxi – na parada, enfileirados diversos carros, quase sempre sem os seus respectivos motoristas. Nosso táxi, porém, estava estacionado exatamente na frente de uma árvore, quero dizer, a porta por onde entraríamos, debaixo daquela chuva, estava na frente da árvore. Não podíamos entrar – digo pro taxista – alguém vem dirigir esse táxi?vão entrando aí! Vão entrando aí? – nós duas nos olhamos e rimos né, a única coisa que dava pra fazer naquela hora – não dá pra entrar moço! Se vira! E ele também se vira e vai pra outro carro conversar sei lá o que.

2º táxi – rindo e falando mal do cara, fomos à esquina que ficava um pouco além do táxi interrompido, interrompido por uma árvore, interrompido por um taxista logicamente interrompido. Estico o braço. Beleza... pára o nosso táxi 2. Adoro entrar em táxis cheirosos e espaçosos. Claro que contamos a história acontecida. O nosso novo motorista, muito simpático, e profissional, nos apóia e diz que é uma barbaridade o que fazem alguns. Ane e eu seguimos na conversa delirante e o taxista tenta, todo o tempo, entrar na conversa. Claro que ninguém sabe com quem está falando quando a conversa é solta pra todas as galáxias. Aí eu pergunto por aonde ele está indo, por que havia parado na esquina sinalizando entrar para um lado proibido. Aviso imediatamente que ele se cuide: Ane é totalmente rigorosa com as “regras”, tá sempre procurando uma regra pra cumprir, só atravessa a rua em faixa de segurança. Quantas vezes já tivemos que caminhar uma quadra a mais por causa disso. O cara simplesmente responde – vou dobrar aqui mesmo, não tem problema, essa rua já foi mão dupla, um dia a mais não dá nada. Viro pra Ane e pergunto – que lei ele está descumprindo? Desde aí Ane passou a discursar sobre o sistema das leis e me diz – esse é um crime anão. Crime anão??? Vê só o nome dado pro tal crime do cara 2. Segundo Ane os crimes estão classificados como hediondos e culposos (dá vontade de acrescentar os gozosos), o fato é que nesse caso, quando o crime é qualquer coisa como algo não culposo nem hediondo, ele não deixa de ser um crime, ele passa a ser um crime anão. Ah não, essa é muito boa, então, na real, tudo pode ser crime, um anão pode estar sempre a nossa volta. Ok, depois dessa fomos deixadas no restaurante do aniversário.

3º táxi – na saída do restaurante... isso parece nome de filme de terror. Certo, o aniversário estava muito legal, rimos muito, porém mais um táxi nos aguardava e bem direitinho. Lá fui eu espichar o braço, éramos 4, 3 iriam em 1 táxi e 1 no outro. O primeiro que parou era legal, o carro novinho. Quem fosse pra casa (ou não), iria sozinha naquele, logo passaria outro. Feito, o outro parou logo atrás. Nada contra carro velho, mas que dá uma impressão estranha dá, e senti a maldade. Entra uma, entra outra, entro eu, fecho a porta. Ficamos sentadas atrás, Ane e eu. O fato é que o táxi exalava um cheiro fortíssimo de xixi, sim, alguém tinha se libertado ali atrás, no banco onde estávamos sentadas. Olhei pro motorista pelo retrovisor e aquele cheiro infernal e aquela cara esquisita dele, aiaiai. Acontece que o imaginário voou e não conseguia mais olhar pra aquela cara, nem suportar aquele cheiro maldito. Desceu a pessoa da frente. A chuva continuava: os vidros não abriam. Havíamos saído de um jantar e vai saber o que acontecera naqueles bancos. O jeito foi descer do mictório ambulante. Partimos, Ane e eu, para mais um táxi.

TIRINHAS


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

TRADUCEIRO

(obra de Beatriz Milhazez)

O PRISIONEIRO

A minha mão tem um gesto
ainda, com o qual afasta;
a humanidade desgasta
a rocha onde resto.

Só ouço as batidas
do coração, que começa
com as gotas caídas
e com elas cessa.

Se caíssem mais depressa,
se um bicho voltasse a passar.
Já foi mais claro em algum lugar-.
Mas quem se interessa.

(poesia de Rilke, traduzida por Augusto de Campos, que compõe o livro “Coisas e Anjos de Rilke”, Editora Perspectiva 2001, p. 53)

ERA UMA VEZ...

O PENSIONATO
(de Eliane Marques)
noite 6

Era de um barro amarelo trôpego, como se a queda lhe esperasse na porta do passo. Os ossos largos lutavam para fugir da escravidão do seu corpo magro pela ação contínua da antiguidade. De sua cabeça lunar e minguante, coberta de fiozinhos de cobre enrolados, descia, rápida, uma corrente elétrica que lhe acendia o palheiro de fumo em ramo ou, ás vezes, de fumo desfiado, comprado em algum boteco apinhado de contas impagas da gente do lugar. O Tuga socava o tabaco em papéis queixosos, na verdade, folhas dos cadernos cansados da desatenção dos netos. Manufaturava desse jeito o oloroso cigarro com o qual eu me embebia quando, ao visitá-lo, tinha de lhe tomar a bênção por ordem de meu pai. Devia-se beijar a mão que resistia em se elevar do braço. Me recuperava da comoção do ato quase religioso durante os 30 dias antecedentes à próxima visita. Na véspera assinalada não dormia: imaginava a mão de Melquíades, saudosa de seu velho clarinete, que teria de beijar.
Enquanto a perversidade da vida ainda não lhe havia salgado os dedos, o Tuga sequestrava os netos da rotina seca e séria dos pais. O avô e a gangue marrom esperavam a aurora na porta da casa amadeirada que logo receberia os pés lentos e pesados de minha avó. Os olhos da “abuela”, de um amor triste e açucarado, descansavam a faina da madrugada com pastéis recheados de céu.
No bairro da Carolina, lugar chamado Tavinha, morava um riozinho que, de vergonha de sua miúdez, se escondia debaixo da saia de uma ponte, a poucas quadras de onde meu avô deixara em pranto a aurora. Alheio ao alvoroço dos metralhas e seus caniços, o Tuga mergulhava o dedo (puro, simples e sem escafandro) no rio. Enquanto os netos exibiam dos anzóis as traíras, jundiás, carás ...ele tirava do miúdo curso d’água o dedo enfeitado, na ponta, com um bicho macilento, metade cobra e metade peixe. Era um muçum o que o “abuelo” pescava. E não mordia? Não, esse bicho era banguela.
O “abuelo” sofria de um irmão, batizado de Vando. O Vando não pescava com os dedos peixes desdentados. Preferia usá-los para pescar copos de cachaça em algum boteco do Cerro do Marco.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

DIÁRIOS









BRECHT

1921, maio

2, segunda-feira

Os dias são vazias cascas de ameixa cuspidas fora. Chove fraco, sopra o vento, estou no quarto frio. Estou sempre vendo a mulher maori ao lado do capitalista gordo e apesar de minha frieza ser total, mesmo sem desejar, ainda sinto pena dela, pois ela faz o mal e já não agüenta. Mas junto com o medo de que ela volte depois de ter estragado tudo, sinto um desprezo crescente por ela. E no dia de seu casamento, eu a arranco de mim com todas as raízes, como uma puta velha em que se tornou de novo.
Sou bom para Bi e a seguro. Não consigo trabalhar.

(do livro “Diários de Brecht - Diários de 1920 a 1922, Anotações autobiográficas de 1920 a 1954”, Organizado por Herta Ramthum, tradução de Reinaldo Guarany, Porto Alegre, L&PM, 1995, p. 87)

CONFÁBULAS



“Lá nos desertos onde a hera cresce
E o mocho desce, procurando a cruz;
Lá, onde a planta da ilusão não medra,”


(Lobo da Costa)

POEMA BUCÓLICO

(de Lúcia Bins Ely)

Junto às uivantes fontes
canta o Lobo sua dor
feito poeta que cava
amores de mera ilusão

falso lenhante de bosque
orquestra com Chapeuzinho
os versos que tramam
suicidas
a morte do caçador.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

QUARTA-COM-CORTÁZAR









da seriedade nos velórios

Uma vez em que eu voltava da França a bordo de um dos distintos barquinhos da nossa Frota Mercante do Estado (Conheço o Rio Bermejo e o Rio Belgrano, lembro do capitão Locatelli especialista em begônias, do camareiro Francisco que era um galego desses que não existem mais e de um barman em cuja escola aprendi a preparar o Coração de Índio, coquetel que, como o nome indica, é popularíssimo na Bélgica) tive a ventura de compartilhar três semanas de bom tempo com o doutor Alejandro Gancedo, sua mulher e seus dois filhos, cada um deles mais cronópio que o outro. Logo se descobriu que Gancedo era da raça de Mansilla e de Eduardo Wilde, o perfeito causeur que com um copo e um havana nas mãos torna-se sua própria obra-prima e que, como o outro Wilde, emprega o gênio na vida embora em seus livros não falte talento.
De muitas das histórias de Gancedo conservo uma lembrança que prova a eficácia com que eram narradas (todo relato é como o relatam, a consciência de que fundo e forma não são duas coisas é o que caracteriza o bom narrador oral, que não se diferencia assim do bom escritor muito embora os preconceitos e os editores estejam a favor deste último). Dentre esses relatos escolho a história, sabendo que a estrago, de como uns conhecidos de Gancedo, que prudentemente chamarei de Lucas Solano e Copinho, foram a um velório e o que aconteceu lá.
Solano foi o encarregado de transmitir os pêsames em nome dos colegas de escritório do falecido, missão que o abrumou a ponto de buscar apoio moral no balcão de um bar da rua Talcahuano onde já estava Copinho em aberta demonstração de como era acertado o seu apelido. Na sexta grappa Copinho condescendeu em acompanhar Solano, levantar-lhe o ânimo, e os dois apareceram no velório com alto grau de emoção etílica. Copinho foi o primeiro a entrar na capela e, embora nunca tivesse visto o morto, aproximou-se do caixão, contemplou-o com austeridade e, virando-se para Solano, disse naquele tom que somente os defuntos suscitam e talvez ouçam:

_ Está idêntico.

Isto produziu em Solano um ataque de hilaridade que só conseguiu abraçando estreitamente Copinho, que, por sua vez, chorava de rir, e assim ficaram durante três minutos, com os ombros sacudidos por estremecimentos terríveis, até que um dos irmãos do falecido que conhecia vagamente Solano se aproximou para consolá-los.

_ Acreditem, amigos, eu jamais imaginaria que gostassem tanto do Pedro no escritório – disse. – Como ele quase nunca ia...

(de Julio Cortázar, do livro”A volta ao dia em 80 mundos”, Civilização Brasileira, 2008, p. 53 e 54)

PSICOANÁLISE EM RECORTES

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856 e morreu em 23 de setembro de 1939. Em 1896 usou pela primeira vez o termo «psicoanálise». Escreveu, entre outros trabalhos, mais de 50.000 cartas ao longo de sua vida.
Freud pertence à história das ciências, enquanto os demais psicoanalistas pertencem à história da psicoanálise.
por Mára Bellini

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

VERSO B

PALAVRAS

Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.

A seiva
Brota como lágrimas, como a
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha

Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho

Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.

(de Sylvia Plath, do livro “Ariel”, Relógio D’Água Editores, 1996, p. 173)

FRASE FEITA

(obra de "os gêmeos")


E não há céu que alcance as nossas pequenas aventuras de voar.

(de Lúcia Bins Ely)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

ENQUANTO ISSO, NA CABEÇA DAS EDITORAS...

(obra de "os gêmeos")

A partir de hoje postaremos textos de Psicoanálise escritos pelos profissionais da Clínica Grupo Cero. A sessão se inaugura com a leitura de uma das faces do personagem "Raimundinho", de Nelson Rodrigues, exatamente falado de a "vida como ela é". Toma a coragem de se imiscuir na vida desse sujeito complicado e assina o texto que inaugura o "divã com Nelson", a psicoanalista Barbara Corsetti que, dentre outros trabalhos, é poeta, contista e coordenadora de um tal laboratório do amor, que logo saberemos do que se trata.


Boa leitura.

NO DIVÃ COM NELSON (A Idade de Cristo, Parte I)



A IDADE DE CRISTO
PARTE I


De seis em seis meses tirava uma radiografia. Nada no pulmão. Insistia com o médico:

- Nada mesmo?

E o tisiólogo, esmagando a brasa do cigarro dentro do cinzeiro:

- Rapaz, você tem um pulmão de anjo. Olha aqui. Estás vendo?

De fato, embora leigo, Raimundo podia constatar, na imagem, uma dessas transparências perfeitas, uma dessas transparências totais. Furioso, perguntava:

- E a minha tosse? Essa tosse que não me deixa? A expectoração?

O médico, apanhando outro cigarro (fumava de dois a três maços, por dia), arriscava:

- Do pulmão não é. Tosse nervosa. Deve ser nervosa. Queres um conselho? Um conselho batata? Vai ao psicanalista.

Raimundo saía do consultório, alucinado. A idéia da psicanálise parecia-lhe de um descaro monstruoso. Preferiu experimentar o espiritismo. Mas não foi bem-sucedido. A tosse continuava como um castigo sobrenatural. Se ela tivesse uma motivação conhecida e verificada, Raimundo não diria nada. Mas as provações de falso tísico, de falso tuberculoso, pareciam-lhe excessivas. E, além disso, era um feio irremediável. Feio, magro e lívido.

Punha-se diante do espelho. Suas olheiras intensas pareciam feitas com rolha queimada. Bracinhos e canelas de Olívia Palito. Perguntava de si para si:

- Por que não meto uma bala na cabeça?
(de Histórias da Vida Como Ela É..., do livro de Nelson Rodrigues - Elas gostam de apanhar, Editora Agir)

@@@@@@@@@@@@@
LEITURA DO PSICOANALISTA
Esse é Raimundo.

Nosso personagem é uma criação do total sentido do que chamamos “a histeria no feminino” – o que no masculino é o hipocondríaco. A visita ao médico já diz o que Raimundo foi buscar. Ele quer uma resposta. Mas a resposta ao que não consegue dizer está sendo escarrada por ele - e essa expectoração? Pergunta ele ao médico – essa expectoração que não me deixa?

Assim funciona um hipocondríaco (o masculino da histeria), procurando no corpo, no corpo físico, o que não consegue tornar simbólico. O que não consegue processar a ponto de produzir algo com o que quer, por isso procura no corpo, como se fosse um mapa de interrogações, como se estivesse ao alcance do médico, não dele, mas do médico.

O médico lhe diz – não há nada – ele não suporta, não acredita no que o profissional diz, existe pra ele uma certeza. Ele sabe que algo está escondido, que algo não está sendo trabalhado e continua investigando, dentro de seis meses lá estará Raimundo novamente.

Fosse uma mulher, nossa personagem, chamaríamos de histérica. Por que histérica?

A histeria foi resultado de um encontro de Freud com suas pacientes. Encontro por que Freud realmente as encontrou, encontrou-se com isso que fala por outras vias no corpo de todos nós. O que as pacientes queriam ao consultá-lo é que fossem ouvidas. Pediam a Freud – doutor me deixa falar, escuta os sonhos que tive, quero contar, me escuta doutor.

Qual o drama da histérica?

O drama da histérica é não identificar seu próprio desejo. Confunde-se com o desejo do outro, não consegue perceber que se quer algo é por que ela deseja. Por instantes parece que deseja o que está fazendo, porém, logo depois, lhe surge a dúvida, lhe parece que está tomando tal atitude por que alguém a forçou a isso. Como se não conseguisse suportar que foi ela mesma quem quis ou fez tal escolha. Chega um momento no qual surge uma frase do tipo – não sei mais quem eu sou, por que estou fazendo isso? Esse tipo de frase - não sei mais quem sou – soa como uma pergunta pela sua sexualidade. Sou homem ou mulher? Esse é o jogo da dúvida.

O que joga na histeria é a construção do sujeito, do psiquismo do sujeito no momento primitivo. Lá quando pequena, quando a criança olha para a mãe e vê na mãe um ser inteiro, linda, completa, plena, em que todas as suas vontades são satisfeitas pela mãe, e que essa está lá para salvá-la, para completá-la em sua conquista. Nesse momento a criança estabelece uma relação com essa imagem que vê.

É aí que a histérica se perde. Pois que todos temos esse momento de construção a partir da imagem do outro, isso é fato. É constituinte pra todos nós, todos passamos pela construção a partir da imagem.

Agora entramos na imagem. O que o Raimundo procura? Uma imagem que diga dele, vai até o médico pedindo uma radiografia que fale dele.

A imagem nos faz mergulhar naquilo que vemos. Uma imagem é a visão de algo pronto. A imagem é uma estrutura fechada, com bordas, com movimento próprio. Nessa imagem que nos toma por inteiro é que se dá essa relação pela qual a histérica se envolve e procura lá o próprio desejo - como se estivesse na imagem.

Façamos uma comparação com o jogo de imagens feito pela publicidade. O interessante na publicidade é construir uma imagem forte e marcante, que cause impacto e gere desejo. Para gerar desejo o que é feito? É construída uma imagem de desejo, onde aquele que está usando tal produto desempenha uma posição desejosa com o produto. Para que? Para que o que olhe também queira o desejo. Não é o produto que o consumidor vai buscar – é o desejo que está explícito. É lá onde o outro deseja que está o encontro. É lá onde o outro mostra a satisfação com a escolha que fez que será desejado.
barbara corsetti
A Parte II de "A Idade de Cristo", acompanhada de "Leitura da Psicoanalista", prossegue na próxima segunda-feira. Esperamos seus comentários!

domingo, 25 de janeiro de 2009

POEMA DE BOLSA

DOBLE
(de Eliane Marques)

recolhi-me da morte
com as lágrimas de um pássaro
e seu lenço de arames

queixas emplumadas
batizaram lembranças
dasgarradas de meu suor

acalentou o canto
o naufrágio dos aviões
olorosos à noite

vem noite
cobre meu repouso
com o corpo do dia

na rota da fadiga
refoge dos versos
da falsa Sharazad

sê deserto

a vida é um paraquedas
que desfia cicuta
sobre o mar manso

e sê triste

que em tua boca inchada
beijos, de joelhos, caem

GRAFFITE


(obra de "os gêmeos")

VERSO B



oportet

preciso
é ter paciência
decantar os vinhos
reler um verso velho que o citrino
sumo dos limões
verdecendo acidula

preciso
é ter ciência
depurar do limo
a água que filtra na palavra luz
o hino do menino char a voz
a vólucre voz
o timbre sibilino
do melro de ouro que clausura a aurora

preciso
é ter ausência
sutileza
tactos
amor (o ato e os entre-atos)
do prestimor querência
para fazer deste papel
poema
desta que mana do estilete azul
escura tinta esferográfica

preciso é ter
demência
obsessão
incerteza
certeza

escuridão gozosa
graça plena
fogo liquefeito
para fazer da tinta e da madeira
apisoada em polpa
que na cortiça antes portava
com brasão teu nome:
a coisa
o corpo
a coisa
em si
a dupla valva
o lacre sob as pubescentes sílabas
o preciso desenho
que como ao deus de adão de uma costela
dá-me fazer deste papel poema e da insinuada
tinta faz
mulher

(de Haroldo de Campos, do livro “Crisantempo: no espaço curvo nasce um”, Ed. Perspectiva, 1998, p. 17 e 18)

sábado, 24 de janeiro de 2009

NOVELLA ZERO




Marcela Villavella é poeta e psicoanalista argentina. Todavia, pelo que faz com as palavras (entre parênteses, para que ela não saiba: menos pelas palavras e mais pelo número do sapato e, às vezes, a forma do cabelo ou um vestido que usa) é tida como a Mafalda do Grupo Cero Brasil. Todo o mês toma, com vinho portenho, um avião bem analisado e tomba, com sua mandrágora falante, aqui, no Porto dos Casais. Dizem as más línguas que nestas terras promove separações e abandonos de lar, tendo enfrentado, inclusive, em função do ofício, processos judiciais propostos pelos vitimados.
Pois bem, não é que a Mafalda brasileña nos contagiou com um grave sintoma argentino o qual conseguimos identificar graças a Cortázar, em texto que logo postaremos neste blog, chamado “Grave problema argentino: Querido amigo, estimado, ou o nome puro e simples”. Sim, ao ter que nomeá-la não sabemos se a chamamos por: querida amiga, estimada ou seu nome puro e simples ou ainda outro que lhe caiba (bem) em seus 1, 60 cm; um nome que não pese demais ou de menos, em fim, um nome que possamos carregar sem sinais evidentes de um crime. Neste passo, ela mesma resolveu a questão nos mandando de Buenos Aires, semanalmente, suas novelas, de modo que não temos escolha e apenas podemos lhe nomear de querida, generosa, ...Marcela Villavella e acabou-se. Das novelas, digam nossos leitores enviando-nos mensagens por que tememos dizer sobre elas algo apaixonado e sermos qualificadas de imparciais ou, o que é pior, de puxa-sacos.

Boa leitura,
As editoras.



SESSÃO DE PSICOANÁLISE (3)
(de Marcella Villavella)

Mariano....
Vamos, suba.
Agora recordo que Mariano faltou à sessão anterior, deixou uma mensagem na secretária eletrônica do consultório dizendo que não se sentia bem... não se sentia bem? Veremos...
_ Oi Ana, bom dia, entro?
_ Sim, adiante.
_ Não vieste no outro dia, te lembras?...
_ bom... estava numa encrenca danada, soube que minha mulher tem um amante... um colega de trabalho... foi por casualidade que soube... a esperava no bar da esquina do seu trabalho e, na mesa do lado, havia duas companheiras do escritório falando dela e de um tal de Alfredo, que mantinham um namoro, e não sei o que mais diziam, porém fiquei enlouquecido...
_ podes continuar...
_ me recordo desse momento e não posso acreditar... de repente vejo que ela entra no bar e cumprimenta suas companheiras e vem cumprimentar a mim como se nada...
_ te cumprimentava, como é isso de “como se nada”...
_ eu estava enlouquecido, entende, o que havia escutado... e ela assim, tão faceira... me tapei de raiva, porém não lhe disse nada, porque primeiro queria falar aqui do que aconteceu...
_ e o que aconteceu?
_ não sei... namora um colega...
_ disseste que tinha um amante
_ sim, fiquei muito confuso... faz dias que está estranha... por isso fui lhe buscar no escritório...
_ foste buscar uma pista de algo...
_ não, não, eu não sabia o que buscava, porém estava estranha... quando eu tive uma amante ela não se deu conta, porém eu me dei conta em seguida do amante dela...
_ ...
_ ...
_ sim, te escuto
_ quando eu saía com Andréa, as coisas iam melhor com Sílvia...por isso, quem sabe, não se deu conta. Eu me encontrava com Andréa no horário do almoço e nas quintas à noite no Clube. Me deixou louco essa mulher...
_ as mulheres sempre te deixam louco, as colegas que contaram de Sílvia no bar, Sílvia que estava como se nada, Andréa...
_ ... sim, é um pouco assim... tu dizes que não sei me comportar com as mulheres? Que não sei estar com elas??
_ não sei, não disse nada, tu disseste que te deixam louco.
_ Agora a que me deixa louco és tu, com isso que me dizes... é grave o que aconteceu...
_ e o que aconteceu?
_ Isso que te digo, ouvi que está de namoro com um colega... pensará que sou bobo??' que não ia me dar conta??'.... mas agora não sei o que fazer, porque se eu lhe digo o que ouvi e ela nega???? ou pior.... se lhe digo e ela diz que sim, que está apaixonada por outro??? O que faço?
_ O que quer fazer?
_ Não sei, nada, me parece.... creio que não quero fazer nada, esse é o problema... sempre pensei que se soubesse de algo, lhe matava... me ia embora de casa, lhe batia... não sei, o que todo mundo diz... porém o que me ocorre é pior... não quero fazer nada, prefiro que ela tenha um namoro e deixe de ter um namoro quando lhe convenha... eu a quero... não quero fazer nada. Isso é o que quero...
_ está melhor em haver tomado essa decisão??
_ sim
_ Continuamos na próxima.
(texto escrito em Espanhol e traduzido para o Português por Eliane Marques)

DIÁRIOS

A partir de hoje, nos animamos a postar alguns fragmentos do diário de Brecht, escrito entre 1920 (época em que o autor contava com 22 anos de idade) e 1922. Não firmamos compromisso com a ordem cronológica dos registros, apenas com aquilo que impressionou os editores a cada leitura (Mas que bárbaro isso!) e que, ao remexer no fundo dos seus diários próprios, calados na memória insone (e, por assim dizer, ainda iletrada) os faz afirmar: tchê, com ele também aconteceu, e como pode escrever desse jeito o que exatamente eu senti e não soube expressar!

As Editoras





BRECHT

1921, maio


3, terça-feira, até 6, sexta-feira

Agora vem a desforra e o purgatório. Pedaço por pedaço, eu arranco de Bi uma coisa terrível. Ela tem uma correspondência com um violinista de cafeteria, um sujeito sórdido, foi beijada por ele, visitou-o e deitou em sua cama. Não deu para ele, isso se deduz das cartas. Ela está arrependida, mas o acha um idealista puro. Os dias em que ela mente, são o purgatório.


(do livro “Diários de Brecht - Diários de 1920 a 1922, Anotações autobiográficas de 1920 a 1954”, Organizado por Herta Ramthum, tradução de Reinaldo Guarany, Porto Alegre, L&PM, 1995, p. 87)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

NOVELLA ZERO


Sessão de Psicoanálise (2)
(de Marcela Villavella)



9h45
Campainha

- Olá, cheguei em cima da hora... pensei que chegaria tarde, fui ao Tribunal às 7, tinha uma audiência às 8... pensei que não chegaria... mas …, bem, a juíza esteve no horário, meu cliente também... um divórcio muito doloroso... vinte anos casados... se atiram todo o tipo de culpa, tantos anos de vida juntos, e agora ela perdeu a paciência... apenas me ocorre isso, porque na audiência, ela estava tranquila, e ele destroçado. Meu cliente é ele... chora como um coitado, te parte a alma... sabe, a vida do tipo girava toda em torno dessa mulher, ela era sua pátria, sua bandeira, que sei eu...ele quer deixar tudo para ela, eu lhe digo que não exagere, que ele tem que seguir vivendo, e que ela já tem o bastante... não chego a me dar conta da causa que lhes separou...
- E por que queria saber a causa?
- Boa pergunta... parece que me angustia esse cliente... me faz recordar de meu velho, quando morreu minha velha... ficou sem vida durante muito tempo, até que depois ele morreu... me recordo que chorava enquanto fazia o churrasco aos domingos, não deixou de fazer nada do que fazia, porém tudo com lágrimas, o pranto aberto... me partia a alma... sim... quando morreu minha velha, me partiu a alma... morreu de repente, não pensei que iria morrer.... era eterna... quando era pequeno, tinha horror de que ela morresse, tanto medo tinha que olhava meu velho enquanto jantávamos e pensava... oxalá morra ele e ela não morra nunca....................................
- pode continuar, estou aqui viva, sigo te escutando.
- Fazia anos que não me recordava de minha velha, é verdade, como se também não estivesse morta... porque está sempre... quando meu velho chorava pela morte dela, eu o olhava com um pouco de desprezo, me parecia que exagerava...
- Ou melhor, o desprezo é porque ele seguiu vivo, e ela morreu primeiro... as coisas não se deram como tu havias planejado.
- Quiçá... não sei... muitas vezes sinto desprezo por gente...
- por mim???
- não, não, não dizia isso... como teria desprezo por você... não, ... pelos vizinhos, por alguns pais dos companheiros de meu filho.... por meu sogro....
- pelos pais, por teu sogro... também és um pai...
- não me vá dizer agora que é edípico e tudo isso que dizem os psicanalistas... gosto de me analisar com você por que nunca diz essas coisas... não me faça isso Ana, por favor...
- te pareceu desprezível minha pontuação??
- sim, sim, a verdade é que sim... hoje não te esmeraste em nada.
- Continuamos na próxima
- já??????'
- sim.
- Ok.... que dia raro hoje não??'

(novela originalmente escrita em espanhol; tradução para o português de Eliane Marques)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

FRASE FEITA

QUEM VEM COM TUDO NÃO CANSA!
(cazuza)

VERSO B




a minha velha querida etcetera
tia lúcia durante a última

guerra podia e o que
é mais disse-te precisamente
pelo que toda a gente estava

a lutar,
minha irmã

isabel produziu centenas
(e
centenas)de peúgas para não
mencionar camisas gorros à prova de pulga

etcetera meias-luvas etcetera, minha
mãe esperava que

eu morresse etcetera
corajosamente é claro meu pai costumava

enrouquecer ao falar de como era
um privilégio e se ao menos ele
pudesse entretanto eu

mesmo etcetera jazia tranquilamente
na lama funda et

cetera
(sonhando,
et
cetera, com
Teu sorriso
olhos joelhos e tua Etcetera)


(poema de e.e. cummings, do livro “xix poemas”, p. 35 e 36,
2ª edição, Assírio & Alvim)